Temas atuais foram destaque em Frankfurt

Da Redação

Com 7.503 expositores de 109 países e um aumento na participação internacional, a Feira do Livro de Frankfurt comemorou 70 anos e registrou um total de 285 mil visitantes.

Muitos editores ficaram entusiasmados com a feira e disseram que a feira deste ano mostrou a força dos negócios, destacando os contatos e a compra e venda de títulos. O Centro de Agentes Literários e Scouts (LitAg) também cresceu mais uma vez, com 528 mesas reservadas, 795 agentes e 337 agências de 31 países, incluindo 19 novas agências. Um total de 3.000 pessoas participaram das conferências e workshops na área THE ARTES+, enquanto 125.000 pessoas visitaram a área inovadora no Hall 4.1. Os eventos do BOOKFEST no Pavilhão de Frankfurt e na cidade atraíram 25.000 visitantes.

Juergen Boos, diretor geral da Feira de Frankfurt, lembrou que a Declaração dos Direitos Humanos foi assinada em um dos piores momentos da história, ainda sobre as cinzas de duas guerras, no mesmo ano e com o mesmo espírito em que nasceu a feira.

Além dos números, ele reforçou que o evento continua sendo o lugar ideal para discutir tópicos que afetam a comunidade global. “Vimos um aumento notável na necessidade de participação política e uma série de tópicos ligados ao momento atual predominou durante as atividades deste ano, incluindo a importância dos direitos humanos, juntamente com o deslocamento e a migração, o populismo e o engajamento cívico. Durante os dias profissionais, o foco estava nos mercados internacionais de livros e nas tendências do setor”, disse.

Também Marifé Boix Garcia, vice-presidente da Feira do Livro, comentou sua satisfação com os resultados: “Fiquei muito contente com o número de expositores e de visitantes da América Latina, sobretudo em uma época tão difícil para essa região. Tivemos novos expositores como Cuba, Costa Rica e Bolívia. A grande novidade desse ano foram os eventos com autores da América Latina no pavilhão central, dando maior visibilidade às vozes em espanhol e português. Associações, editores e governos fizeram um grande esforço para garantir essa participação”.

Heinrich Riethmüller, presidente da Associação Alemã de Editores e Livreiros, comentou que “a indústria do livro tomou uma posição clara em favor dos direitos humanos, liberdade, diversidade e respeito. Durante cinco dias, Frankfurt foi o maior centro comercial do mundo para conteúdo e histórias. A feira do livro demonstrou que é um lugar de ideias e debates, além de um grande festival de leitura. Foi possível sentir claramente o entusiasmo que as pessoas têm pelos livros e o significado que a literatura tem para eles. Editores e livreiros estão trabalhando intensamente para desenvolver novas conexões para os clientes de hoje, algo que também foi perceptível na feira”, completou.

A campanha On The Same Page também atraiu a atenção internacional e será desenvolvida nos próximos meses, realizada pela Feira do Livro de Frankfurt e pela Associação Alemã de Editores e Livreiros, em cooperação com a ARTE, ZDF e DER Spiegel e com o apoio das Nações Unidas e da Anistia Internacional.

A apresentação da Geórgia como país Convidado de Honra dessa edição foi marcante, com performances, música, descobertas culinárias, leituras e, acima de tudo, uma impressionante gama de vozes literárias, resgatando sua cultura milenar.

Destaques

A grande novidade foi o Pavilhão de Frankfurt, inaugurado pelo presidente Frank-Walter Steinmeier. Chimamanda Ngozi Adichie trouxe para a feira um discurso sobre tópicos altamente atuais, como migração, racismo e direitos das mulheres. Durante os cinco dias da feira, autores como Paul Beatty, Dmitry Glukhovsky, Maja Lunde, Laksmi Pamuntiak, David Sedaris, Nguyen Ngoc Tu, Meg Wolitzer e muitos outros entusiasmaram o público.

Entre os temas das mesas, destaque para Política e literatura, com discussões socioeconômicas e políticas reunindo autores de países latino-americanos, valorizando questões de identidade, sistemas econômicos pós-capitalistas, distorções sociais e emancipação cultural e econômica dos Estados Unidos. Participaram João Paulo Cuenca (Brasil), Vivian Lavin (Chile), Carla Maliandi (Argentina) e Jaime Labastida (México).

Em outra mesa, o boom literário latino-americano dos anos 50 foi relembrado pelo seu legado que dura até hoje e ainda obriga os autores contemporâneos a combater a rotulagem, a indiferença e o exotismo. Tópicos e gêneros, estética e contadores de histórias da nova literatura da América Latina são tão variados e complexos quanto o continente é diversificado em geografia e culturas. Participaram Ariana Harwicz (Argentina), Geovani Martins (Brasil), Antonio Ortuño (México / Espanha), Pilar Quintana (Colômbia), Mike Wilson (Chile / Argentina).

Mulheres

A participação feminina também foi um tema muito interessante nos debates sobre autoras de língua espanhola e portuguesa, publicados em seus países de origem e na Alemanha. Estilisticamente e tematicamente, esses autores femininos variam amplamente e desmontam imagens convencionais e rígidas de “mulheres que escrevem” e têm sucesso em fazê-lo. Participantes: Gabriela Cabezón (Argentina), Mercedes Rosende (Uruguai) e Bianca Santana (Brasil).

Raquel Menezes, que participou dessa mesa, veio pela quarta vez à Feira do Livro, e diz que sempre sai feliz com a troca de experiências. “O livro é um ingrediente importante na construção da história, é um mediador do evento e do registro. Falar de mulher da América Latina em Frankfurt neste momento perigoso que estamos vivendo no Brasil foi importante para mostrar como o feminismo vem crescendo e como as mulheres conseguem transformar o mercado”.

Dias mágicos

Diana Passy, analista de marketing da Companhia das Letras, participou pela primeira vez da Feira do Livro de Frankfurt, como vencedora do prêmio principal dos Jovens Talentos 2018.
Diana ganhou uma viagem para acompanhar a Feira do Livro de Frankfurt com as despesas de passagem e hospedagem custeadas pela organização, além de uma ajuda de custo de 500 euros e ingressos para o Business Club, a área VIP da maior e mais importante feira de negócios do livro no mundo. Acompanhe seu depoimento:

“Eu sempre ouvi tanto sobre a Feira de Frankfurt, acompanhei as notícias e me debrucei sobre os catálogos para achar aquele manuscrito que tínhamos que ler rápido, antes que outra editora fizesse oferta! Mas eu nunca tinha ido à Feira. Ir como convidada por causa do Prêmio Jovens Talentos Publishnews tornou tudo mais especial: foi empolgante conhecer os ganhadores dos outros países, e conversar com cada um sobre seus projetos e paixões. Seja uma livraria independente com grandes planos para sua comunidade, ou uma iniciativa para trazer mais diversidade à literatura infantil, ou um projeto de crowdfunding que gerou um best-seller internacional. Eu calcei meus sapatos confortáveis e andei pelos Halls, e vi pessoas de tantos países diferentes, e me deixou tão feliz saber que estávamos todos lá por causa dos livros. E quando eu estava cansada de andar,  muito bom poder assistir conversas com CEOs, autores e editores.

Foi uma alegria conhecer pessoalmente agentes com quem eu só tinha falado por e-mail (e conversar sobre os livros que têm nos empolgado, claro), mas também ter um tempo para tomar uma caipirinha com os editores brasileiros que você não vê todo dia porque cada um fica em seu escritório. Eu me despedi da Feira no sábado, depois de ver os leitores preenchendo os corredores para encontrar seus autores favoritos, tantos vestidos em cosplay. Estar entre pessoas que amam livros é que me energiza, então eu espero poder voltar a Frankfurt no futuro”.

Diversidade cultural

Filinto Elísio, diretor da Rosa de Porcelena, pequena editora de Cabo Verde, disse que a participação na Feira do Livro de Frankfurt, através do Invitation Programme, foi uma grande oportunidade de aprendizagem.

“Tivemos a oportunidade de aprender nos seminários realizados, em muitos aspectos que são importantes para quem trabalha na indústria do livro, como direitos autorais e editorais.  Tivemos também a chance de manter contatos multilaterais com outras editoras do Programa e poder estabelecer algumas relações de parceria. Conseguimos, ainda, negociar direitos dos nossos livros editados e agenciamento para alguns dos nossos autores”. Filinto revelou que estão em vias de fechar a representação internacional de três autores, algo ainda em negociação. Para ele, vivenciar e usufruir do enorme e intenso ambiente cultural em torno do livro e do universo da leitura, foi enriquecedor também como autores e organizadores do Festival de Literatura-Mundo do Sal, evento anual que se assume como uma plataforma para dar visibilidade cultural para Cabo Verde e para a internacionalização dos escritores cabo-verdianos. “Sentimos ter ficado uma porta aberta tanto para a editora como para Cabo Verde que, enquanto país, teve uma ativa e assumida presença com estande próprio na Feira do Livro de Frankfurt. É muito bom despertar o interesse pela África e a opção de ampliar a diversidade de participação dos países, regiões e línguas”, concluiu.

Noites literárias agitaram Frankfurt

Michael Kegler é alemão, tradutor de literatura brasileira e de língua portuguesa e dessa vez sua passagem pela Feira do Livro de Frankfurt foi tão corrida que ele nem pode assistir aos eventos no novo pavilhão.

Ele organizou, durante o evento, as noites literárias no Centro do Livro de Língua Portuguesa. Entre elas, conversa com os escritores João Paulo Cuenca e o angolano Kalaf Epalanga. O primeiro escreveu “Descobri que estava morto” e “Também os brancos sabem dançar”, do Kalaf, ambos ainda à procura de editora alemã.

As noites literárias na livraria já têm uma longa tradição e sempre atraem as 50 pessoas que cabem naquele espaço: escritores, editores, leitores, representantes, equipe da DGLAB, de Portugal, que sempre comparece. Michael moderou o debate O papel da língua portuguesa como traço de união ou vestígio tedioso do colonialismo?, com a escritora portuguesa Isabela Figueiredo, o angolano Kalaf Epalanga e  JP Cuenca, organizado pela própria Feira de Frankfurt, por iniciativa da embaixada portuguesa. “Havia muito público, metade eram alemães. Havia tradução simultânea, excelente aliás. A conversa há de continuar, porque certamente uma hora não basta para aprofundar e resolver um problema tão complexo”, disse. “Estou contente com estes dois eventos porque remetem para uma conversa entre os diversos países de língua portuguesa. Estou grato pelo fato de que a CBL ou o MinC tenham possibilitado a viagem dos três escritores, porém com alguma iniciativa adicional do Brasil “oficial” poderíamos ter organizado alguns eventos a mais, para aproveitar melhor a viagem dos escritores, que com a exceção do JP Cuenca ainda são desconhecidos na Alemanha”, ele analisou.
Sobre a participação brasileira, Michael fez algumas críticas: “Em geral acho que o Brasil podia fazer mais bonito. Depois do famoso 2013 não houve grande continuidade de esforços de divulgação da literatura brasileira. Ainda existe o programa de apoio à tradução, mas com todos os problemas que o Brasil enfrenta atualmente, quase ninguém na Alemanha acredita mais naquilo. A confiança que conquistamos entre 2011 e 2013 está desmoronando, também porque apesar de alguma iniciativa de associações aqui na Alemanha, ou desta vez, da Feira de Frankfurt, parece que o Brasil se limita a expor livros e já não dispõe de nenhum espaço no seu stand para promover autores”. Além dessas duas mesas, o tradutor contou que manteve conversas com editores brasileiros e alemães. “O que resultará disso, se verá”.

Estratégia é fundamental

O editor Antonio Erivan Gomes, da Telos Editora, elogiou a comemoração dos 70 Anos da Feira do Livro de Frankfurt unindo ao lançamento da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Erivan ressaltou que essa temática, com divulgação mundial em uma feira de livros como Frankfurt, faz com que as pessoas prestem mais atenção e se envolvam para manter as conquistas. “Participei de cerca de 50 reuniões, e em boa parte delas fui questionado sobre a situação política do Brasil, com grande preocupação com as próximas eleições e a possibilidade de ocorrer um grande retrocesso em nosso país”.

Ele destaca também o movimento de outros países como a China e a Coreia em fazer um trabalho não somente de comprador, mas também vendedor de conteúdo. “A China está claramente numa posição de um grande comprador em termos mundiais. Cada vez mais o mercado está muito competitivo na venda de direitos como em Frankfurt, onde certamente haverá cada vez mais ofertas e conteúdos. Todos os países estão percebendo que tem literatura e querem negociar, A tendência é que países como Estados Unidos, Alemanha e França vão continuar liderando as vendas de direitos, mas cada vez mais teremos projetos importantes como o Brazilian Publishers, que incentivo a venda do produto brasileiro ao Exterior. Participando da Feira de Frankfurt percebemos a necessidade de o país montar uma estratégia para divulgação dos nossos autores”.

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