Laura Esquivel virou multimídia

Por Ivani Cardoso

“Lupita gostava de engomar” (Bertrand Brasil) é o novo livro da mexicana Laura Esquivel, uma das mais importantes do seu país. A obra tem como protagonista uma policial alcóolatra testemunha de um assassinato. Esquivel é autora, entre outros títulos, do best-seller internacional “Como água para chocolate”, romance com mais de 4,5 milhões de cópias em todo o mundo, traduzido para 35 idiomas e adaptado para o cinema em 1992. Atualmente transformada em trilogia, a obra terá também uma série para a TV e um espetáculo na Broadway. Sempre atualizada, a escritora diz que está acompanhando a situação política no Brasil e completa: “O que eu vejo dói em minha alma.

Confira a íntegra da entrevista:

Como surgiu a inspiração para esse novo livro?

Lupita é uma anti-heroína e tem como inspiração a dor da situação que estamos vivendo no México e o desejo de encontrar uma saída dessa realidade, que não necessariamente passa pela política. Ela é uma mulher forte e maltratada, alcoólatra, uma policial que precisa lidar com problemas difíceis, em grande parte provocados pelo narcotráfico. No transcurso do romance nós vemos que ela cai novamente no vício, mas quais seriam os caminhos de saída? E essa saída para mim é o mais importante, porque um escritor deve mostrar caminhos. Posso dizer que ela não vai encontrar essa saída na justiça, mas vai se recuperar

A realidade também serve de inspiração para a senhora?

Sim, sempre e muito. Eu nunca perco de vista que a realidade não é algo que acontece e que não interfere em nada, pelo contrário. Cada ato que realizamos a cada dia está confirmando a realidade. Muitas vezes em opções equivocadas, como no caso de Brasil e Argentina, por exemplo. As pessoas muitas vezes se dão conta, mas não basta estar ofendida, indignada e cansada de tanta corrupção se não sabe qual é o caminho para chegar a outro lugar. Isso é o que passa com Lupita, a protagonista do meu romance. Ela não quer viver da maneira que vive, mas não sabe como deixar de repetir histórias dolorosas.

E por que esse processo é tão difícil?

Porque essas respostas têm a ver com o que temos deixado de fazer em nossos países. Tem a ver com uma sabedoria ou conhecimento ancestral, com uma ordem que não tem a ver com a ordem econômica ou política. Tem a ver com buscar e reencontrar esse bem-estar que se perdeu. É importante reconhecer a cosmogonia, que todos fazemos parte de um todo, é isso que vai buscar Lupita com os xamãs, com as comunidades femininas que estão se organizando, talvez também em Brasil isso venha acontecendo.

E o realismo mágico em sua obra?

Eu respeito os acadêmicos que pensam que minha obra é de realismo mágico, mas não é assim que considero. Creio que há uma visão diferente, talvez porque no México nós temos uma cultura altamente simbólica e poética. Por exemplo, um dos nossos deuses, Quetzalcóatl, é uma serpente que voa, e visto de fora pode passar uma ideia diferente. Para mim isso não é realismo mágico, é uma imagem simbólica que faz parte da nossa cultura. Talvez também achem isso porque eu utilizo uma linguagem exagerada, mas não tanto mágica.

“Como Água para Chocolate” é um belo livro, virou filme e tem trechos inesquecíveis. O que faz o sucesso do livro?

Quando saiu o romance, sempre me faziam essa pergunta e eu não sabia o que responder, não tinha ideia. Mas a partir dessas perguntas eu fiz um discurso com lógica, dizendo que talvez porque o mundo moderno nos havia roubado a sensualidade, e este contato com os alimentos e o espaço da cozinha, como um centro de alquimia, conectava livro e leitores. Passaram-se quase 30 anos, e nas feiras dos livros eu via e vejo filas de jovens de 18, 20 anos, encantados com o livro. Então, meu discurso ficou desatualizado. Esses jovens nem eram nascidos quando escrevi o romance, e o que há na história de Tita e Pedro que eles gostam tanto? Eles me abraçam e eu fico tentando encontrar a resposta com sentido, sem que se identifiquem com Tita como uma mulher vítima e objeto do desejo da sua mãe, que não podia realizar seu amor e que expressava esse amor através da cozinha. Os tempos mudaram e já não há mães com esse poder.

E a partir dessa constatação, que nova resposta encontrou?

A realidade é outra. Hoje há, sim, um modelo econômico opressor e castrador que está determinando quem estuda e quem não estuda, quem pode sair de seus países como imigrantes e ser recebido em outro em busca de trabalho. Essa realidade está impondo um modelo a essas pessoas desde que nascem e são impedidas de manter seus sonhos e sua dignidade.

Como veio a ideia da trilogia do romance?

Por essa atualidade do tema, resolvemos fazer a trilogia. Um deles é o “Diário de Tita”, um livro escrito à mão, em primeira pessoa, que eu tenho o original, com cartas de Tita, fotos e outros documentos reveladores sobre os 20 anos desconhecidos dessa história. A trilogia termina com “Meu negro passado”, sobre a carga da raça negra dessa família, que esteve presente e continua presente na época atual, com uma personagem que é negra, que é gorda, que não sabe cozinhar, que tem problemas graves com comida.

Por que esse viés?

É um reflexo, um espelho do que se passa no México. Nós mexicanos temos uma tradição enorme na culinária, nossa cozinha é patrimônio cultural da humanidade e, no entanto, temos os mais altos índices de diabetes, de obesidade. É preciso saber o que está se passando. A resposta é que nessa família, como no país, houve um rompimento geracional com as mulheres sábias e isso se perdeu.

Quando começou a escrever?

Eu comecei a escrever por necessidade. Sou professora e me especializei em teatro para crianças. Há poucas pessoas que escrevem para crianças no México. Como precisávamos de obras de teatro infantil para levar nas ruas e nas escolas, tínhamos um programa de TV semanal e isso me empurrou para a escrita. Nessa época estava casada com Alfonso Arau, diretor do filme “Como água para chocolate”, e ele me perguntou: por que não escrever para cinema? Fiquei na dúvida, eu vinha de teatro, mas comecei a estudar e escrevi para o cinema. Mas é muito frustrante escrever para cinema e ver o é levado para a tela. O escritor não tem o poder de decisão e muitas vezes a direção vai fragmentando a ideia do livro. Então resolvi partir apenas para livros, já estava com 37 anos, acho que comecei a escrever tarde.

Foi uma criança leitora?

Sim, eu lia o que tinha ao alcance da mão. Eu venho de uma família de classe média baixa. O que minha mãe gostava era o que eu lia, principalmente os clássicos do meu pai, como Júlio Verne.

Utiliza a tecnologia em seu trabalho?

Sim, eu gosto da tecnologia. Meu segundo romance, “A lei do amor”, de 1995, foi o primeiro multimídia. Mas na época não havia a tecnologia que eu necessitava. Hoje, sim, mas como temos uma versão em que a música e os quadrinhos se entrelaçam, não podemos utilizar por conta de uma questão de direitos autorais das músicas. No livro “Meu negro passado”, também há referências musicais, mas eu resolvi não produzir para evitar problemas e as pessoas podem baixar a playlist pelo Spotify.

A senhora conhece o Brasil?

Sim, o Brasil me fascina e Salvador é uma das minhas cidades favoritas. Fico triste com a situação atual, o que eu vejo me dói na alma.

Escrever é …

Amar.

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