“Na leitura, todos nos encaixamos”, diz Andújar

Por Ivani Cardoso

 

O blog “Donde Viven Los Monstruos: Literatura Infantil y Juvenil” é um espaço dedicado à mediação de leitura e a resenhas de livros para crianças e jovens. Seu autor é o espanhol Román Belmonte Andújar, formado em Biologia pela Universidad Complutense de Madrid e em Ciências Ambientais pela UNED. Professor do Ensino Fundamental apaixonado pela leitura, ele diz que “os livros nos enriquecem sem termos de desistir de ser nós mesmos ou do que vivemos”. E segue em frente como um cavaleiro andante em busca de seu sonho.

 

Leia a entrevista na íntegra:

Como surgiu o blog?

Em 2007, o Plano Nacional de Leitura 2005-2010 estava em andamento e era difícil alcançar as famílias e profissionais envolvidos na mediação da leitura. Muitos deles não conheciam os títulos apropriados para seus alunos ou estratégias e atividades para incentivar a leitura em suas casas e escolas. Essas foram as razões pelas quais blogs e blogs digitais foram tão bem recebidos dentro desse contexto, estabelecendo-se como ferramentas úteis para a promoção da leitura. Um deles era o meu (http://romanba1.blogspot.com), que apesar dos anos e da hegemonia das redes sociais permanece ativo, publicando gratuitamente resenhas, monografias, exposições virtuais e opinião para quem se atreve a pisar nesta morada de anões, livros e monstros.

Qual é a magia do livro?

Pode-se dizer que a magia do livro habita tanto seu conteúdo quanto seu continente. Por um lado, temos o objeto livro, um artefato criado pelo ser humano séculos atrás. Ele abre e fecha, você também pode cheirar e acariciar, nele encontramos páginas que podemos virar, uma por uma, para descobrir o que elas guardam. Por outro lado, temos tesouros: histórias, fantasia, realidade, sonhos, memórias, conhecimento, palavras, imagens, um espelho para olharmos para nós mesmos. O livro é um organismo maravilhoso que sempre nos surpreende.

O mundo tecnológico prejudica essa magia?

A demonização da tecnologia é um erro, simplesmente porque, sem ela, eu não poderia ter encontrado meu blog e não poderíamos ter feito essa entrevista, nem outros poderiam tê-la lido. O importante (e complicado) é usar os suportes e produtos que a tecnologia nos oferece em favor de um conhecimento plural. Embora seja verdade que a irrupção da tecnologia em nossas vidas diversificou a oferta de lazer e, portanto, subtraiu o tempo de outros hobbies clássicos como a leitura, também acho que abriu novos caminhos para isso. Com ela apareceu a mídia digital (e-book) e a oferta foi ampliada em termos de formatos, veio a “literatura digital” e novas formas de leitura instrumental, os hipertextos. O que permanece em nossas mãos é valorizar o objeto do livro e a leitura do lazer como outra alternativa que não deve ser esquecida. Todos podem conviver juntos enquanto têm um lugar para morar.

O que é um bom livro infantil?

Não há muito mistério, uma vez que muito se parece com um bom livro para adultos … É bem escrito, bem ilustrado (no caso do livro-álbum), tem uma boa edição, ele fala a todos os que se aproximam, estabelece um diálogo com os seus leitores, permite que criem o se próprio discurso e proporciona uma excelente experiência estética. O que mais chama: “Cem anos de solidão” ou “Onde moram os monstros”? O caso é que os livros nos enriquecem sem termos de desistir de ser nós mesmos ou do que vivemos.

Quem pode incentivar a leitura?

Eu não acredito muito nas campanhas institucionais para a promoção da leitura, especialmente quando observo que por trás delas não há um claro interesse na leitura na infância e na juventude, mas muita demagogia, populismo e propaganda, uma maneira de expiar os pecados dos políticos que precisam de cidadãos ignorantes para continuar perpetuando suas atividades. Acredito em pessoas que, a título pessoal, trabalham por uma alfabetização plural e crítica. Acredito na família, nos professores, nos bibliotecários e nos mediadores da leitura. Profissionais e leitores que ajudam os recém-chegados a encontrar seus próprios links com livros e literatura, que mostram que na leitura todos nós nos encaixamos. Há bibliotecários e professores que fizeram mais pela leitura em meu país do que muitos planos que custaram milhões de euros aos contribuintes.

Como os organismos públicos devem promover projetos de leitura?

A administração deve diversificar seus esforços para que projetos pequenos e grandes sejam concretizados. Os governos não devem alocar enormes quantias de dinheiro para grandes campanhas com fogos de artifício e deixar de lado pequenas atividades que podem ser ainda mais eficazes e contribuir para elevar o capital cultural de um país. Não tem só que comprar livros, mas fazer com que eles cheguem para que as pessoas possam mergulhar neles e ganhem asas, o que também deve acontecer para bons conselheiros na arte da mediação de leitura, que com imaginação e novas ideias possam encontrar novas formas de trabalhar títulos. E por último, mas não menos importante, com muita objetividade e compromisso, algo que nunca está presente nessas questões.

As bibliotecas funcionam bem em seu país?

De modo geral, as bibliotecas espanholas funcionam bem, embora eu ache que não sabemos aproveitá-las. Não só porque uma grande parte da população as relaciona apenas com a leitura e o estudo, mas porque as pessoas não usam todos os recursos que elas oferecem, especialmente devido à falta de conhecimento. Obviamente, tenho más opiniões sobre como algumas são geridas, especialmente no que diz respeito à aquisição de fundos, manutenção do catálogo e mediação de leitura, mas geralmente estou satisfeito, embora eu ache que elas poderiam melhorar muito se fossem mais abertas e se tivéssemos políticas para incentivar bibliotecas de usos múltiplos.

Como é a literatura infantojuvenil na Espanha?

Estamos passando por um bom momento na Espanha. É o único gênero que cresceu em vendas durante a crise econômica. Ficamos felizes porque começamos a ver como parte da economia familiar – apesar da situação difícil – começou a ser destinada à cultura dos mais jovens, ou seja, as pessoas passaram a investir nesse tipo de literatura olhando para o futuro. Graças a essa aposta dos editores, especialmente os independentes, apareceram novos autores como Monica Rodriguez, Pep Bruno, Margarita del Mazo, Daniel Nesquens e muitos outros que trouxeram contribuições novas e interessantes para a LIJ espanhol. Talvez essa tenha sido a parte mais doce, porque também é verdade que isso causou alguma superprodução no setor, que ainda continua até hoje.

Qual a importância da imagem para o livro infantil?

Quando falamos sobre o livro e ilustração para crianças, temos de nos concentrar sobre o gênero do álbum livro, que combina dois tipos de linguagem: verbal e o mundo das imagens. Nele, a ilustração é fundamental, primeiro porque vivemos em um mundo onde a imagem é onipresente, onde todos apreciam a sua importância de forma natural e intuitiva. Em segundo lugar, com referência à infância, a imagem não só apoia o processo de pré-leitores, mas o enriquece com a estética para estabelecer relações de ideias e conceitos de vista de diferentes naturezas. A ilustração ajuda a desenvolver múltiplas facetas discursivas em um bom livro, um bom álbum. É um gênero que eu amo, e junto com a graphic novel é um dos que definem a literatura do século XX e início do XXI. São os gêneros do milênio e a ponta de lança da narrativa gráfica.

Quando surgiu a leitura em sua vida?

Não me lembro muito bem do momento em que nasceu o leitor que mora em mim, talvez tenha sido um processo muito natural. Eu levei isso com muita curiosidade, como um novo jogo que desenvolvi pouco a pouco até chegar aqui. No que diz respeito a histórias, eu me lembro com carinho uma coleção de contos H. C. Andersen ilustrados por Apel.les Mestres e os “Cuentos del río Amur”, de Naguishkin y Pavlishin. Em álbum livro, poderia citar “Cuando los borregos no pueden dormir”, de Satoshi Kitamura, alguns dos livros de Richard Scarry, “Donde viven los monstruos” ,de Sendak, e livros de autores espanhóis como Asun Balzola, Miguel Calatayud, Luis de Horna, Ulises Wensell ou Carme Solé Vendrell. Lembro de romances como “El zoo de Pitus” de Sebastiá Sorribas, um clássico de nossa literatura, “Un oso llamado Paddington”, de Bond, “El maravilloso viaje de Nils Holgërson através de Suecia”, de Selma Lagërloff,  “Robinson Crusoe”, de Defoe, e “La isla del tesoro”, de Stevenson. E a “Enciclopedia de las cosas que nunca existieron”, de Page e Ingpen, um livro que me encanta.

Os audiobooks são bons caminhos para as crianças?

Se pensarmos cuidadosamente, o princípio da literatura infantil é encontrado na tradição oral, no folclore e nas narrativas que mais velhos contavam em voz alta ao redor do fogo. Lá todos eles se encaixam: pais, filhos e avós. Nessas histórias e lendas nasceu o germe da literatura infantil, na escrita dos folcloristas, dos irmãos Grimm ou Perrault. É assim que nasce essa literatura, que se consolida sob a forma de livros ao longo dos séculos. No século XX, graças ao ressurgimento de contadores de histórias usando a comunicação verbal como uma forma, em muitos casos oportuna, foi possível retomar a mediação da leitura. Essas sinergias e ideias são aquelas que serviram para a indústria dar vida aos chamados audiobooks, e justificar seu uso na primeira infância para inculcar o hábito da leitura. No entanto, embora a tradição oral sempre esteja presente na aquisição da linguagem, na comunicação e nas formas originais de literatura infantil, eu não concordo que o processo de leitura deve ser baseado em um formato híbrido que pode ser mais confortável do que a difícil tarefa de ler, que implica um complexo processo mental que requer esforço e dedicação.

Você tem livros publicados?

Embora eu trabalhe mais na divulgação da mediação de leitura e crítica de LIJ, tanto no blog e em revistas, há alguns anos eu fiz uma incursão no mundo do livro-álbum com “After my window”, um título com ilustrações de Katie Harnett dedicado a jovens com problemas. Certamente haverá mais surpresas em breve, mas isso é outra história.

Frankfurt para crianças
Da Redação

Os livros infantis sempre foram parte integrante da Feira do Livro de Frankfurt, mas a sua presença aumenta em 2018 com o novo espaço Frankfurt Kids. O objetivo é reunir os editores infantis de todo o mundo em uma reunião central e espaço para eventos.
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Bibliotecas públicas passam a ter acesso à base de dados da Metabooks
PublishNews
03/08/2018

Convênio assinado prevê o licenciamento gratuito da plataforma de metadados alemã para as bibliotecas públicas brasileiras. Ronald Schild, CEO da empresa alemã detentora da Metabooks, aproveitou a sua vinda ao Brasil para assinar um convênio com o Ministério da Cultura (MinC) que prevê o licenciamento gratuito da plataforma de gestão de metadados para que o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas possa acessar as informações atualizadas sobre os títulos do mercado editorial brasileiro.
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Spotify agora conta com HQs animadas; primeiro título é Archie
Canal Tech
Natalie Rosa
01/08/2018

Spotify está experimentando um novo formato em sua plataforma, arriscando ir além das músicas, vídeos e podcasts. Agora, a empresa também exibirá histórias em quadrinhos em movimento. O anúncio foi feito e o primeiro título escolhido para a novidade são as histórias de Archie, clássico das HQs dos Estados Unidos que agora voltou à vida pelas mãos do escritor Mark Waid e da artista Fiona Staples.
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Conheça os criadores de conteúdo que estão transformando inscritos em leitores
NY Times
Concepción de León
31/07/2018

Os BookTubers recebem cópias antecipadas dos próximos livros, e as editoras geralmente patrocinam seus vídeos para promover novos lançamentos. Embora sua influência seja difícil de quantificar, o engajamento dos espectadores é substancial; muitos assinantes comentam que estão convencidos a comprar o livro que está sendo promovido. Segundo o YouTube, a comunidade como um todo alcançou mais de 200 milhões de visualizações e, em comparação com o mesmo período do ano passado, o envolvimento com elas aumentou 40%.
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Goodreads e o peso esmagador do FOMO literário
Wired
Angela Watercutter
31/07/2018

O artigo fala sobre a experiência de não acompanhar os avanços literários de sua rede de conhecidos no Goodreads. Porém, o site serve como um motivador e um mecanismo de recomendação para seus 75 milhões de usuários. As pessoas querem acompanhar seus amigos, mas por meio desses amigos também descobrem livros que querem ler. E há o Goodreads Reading Challenge, uma seção do site onde os usuários podem definir metas para si mesmos.
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Como as capas florais estão dominando as estantes do mundo todo
Vanity Fair
Kenzie Briant
01/08/2018

Em algum momento nos últimos anos, as livrarias se tornaram floriculturas. Aconteceu lentamente no começo e, depois, de uma só vez. As capas da nova ficção foram subitamente preenchidas com estampas florais. Exuberantes, coloridos e, o que é importante, ancorados em uma generosa tipografia branca, esses designs abrangem editoras e gêneros. Os florais são uma solução sedutora para um designer de capa de livro porque transmitem facilmente um clima sem enfiar uma imagem na cabeça do leitor.
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