O desafio de manter a boa literatura

Por Ivani Cardoso

O escritor e editor Marcelo Nocelli conta que antes da paixão pelo livro veio a paixão pelo gibi. Começou a inventar histórias para os quadrinhos de Mauricio de Sousa antes mesmo de aprender a ler. Há seis anos montou a Editora Reformatório e tem vários autores premiados. Formado em tecnologia eletrônica e licenciado em Letras, também é autor de contos e crônicas publicados em revistas e sites especializados no Brasil, Alemanha e Itália. Para ele, o livro é uma importante ferramenta de resistência política, social e cultural.

Leia a íntegra da entrevista:

Quando começou a paixão pelos livros?

Minha mãe me fez leitor. Quando ela ainda estava grávida, meu pai recebeu uma proposta de emprego em São Paulo. Eles deixaram tudo (ou o nada que tinham) no interior de Minas Gerais. O que ela não sabia é que neste novo emprego meu pai passaria dias viajando. Sem conhecer ninguém na cidade grande, ela passava os dias tendo por companhia os livros que lia e comentava comigo enquanto eu ainda estava em sua barriga. Quando cresci um pouquinho, e a incomodava querendo pegar o livro de suas mãos, ela passou a me dar os gibis: “este é o seu”. Era tão natural para mim ver minha mãe lendo que aquilo se tornou um hábito comum, orgânico.

Como virou um editor?

Quando terminei o ensino médio e chegou a hora de decidir que faculdade seguir, minha intenção era fazer Letras. Meus pais diziam que a escolha não era das melhores. Era o período pós-ditadura e o auge do Brasil tecnicista. Meu pai era técnico mecânico e concordava que para aqueles que “não nasciam em berço de ouro” este era o melhor caminho para um bom emprego e melhor oportunidade de salário. Concordei em fazer tecnologia eletrônica. Me formei, e quando fui buscar meu primeiro emprego o que consegui foi trabalho numa gráfica (especializada em fazer livros). Era um sonho ter nas mãos um livro recém-saído das máquinas, imaginando que era um dos primeiros leitores, antes do livro chegar às livrarias. Fui deixando os livros técnicos de lado e voltei a ler ficção alucinadamente. Nas horas vagas, meu hobby era escrever contos, projetar um romance.

E o sonho antigo?

Depois de quinze anos trabalhando como técnico gráfico, resolvi voltar à faculdade para cursar Letras, um passatempo. Neste período escrevi e publiquei o primeiro livro. No curso conheci um jovem colega também apaixonado por livros. Já no último ano da faculdade eu estava com meu segundo livro pronto, esperando resposta de alguma das tantas editoras para onde havia enviado o original do livro. Numa noite qualquer, no bar, este amigo disse em tom de brincadeira: “se nenhuma editora quer publicar seu livro, por que a gente não abre uma editora e publica o seu e outros livros? Você já tem a experiência da gráfica, eu fiz um estágio de alguns meses numa editora…” levei a proposta tão a sério que no dia seguinte começamos o projeto.

Quantos títulos até agora?

Pela editora Reformatório são 44 títulos. Como a editora nasceu com uma linha editorial definida – literatura brasileira contemporânea – ficção em prosa e poesia, percebemos que estávamos perdendo algumas boas oportunidades para publicar livros como biografias, livros de psicologia, ensaios… Então, em 2015, inauguramos o selo Pasavento, para publicação de não-ficção. Por este selo são outros 42 livros, até agora.

Quais os novos projetos?

Para este ano ainda temos três títulos a serem publicados pela Pasavento e outros 6 pela Reformatório. Entre esse, acho que posso destacar “Poéticas do Ensaio”, um volume organizado pelo Marco Lucchesi (presidente da Academia Brasileira de Letras) com a participação de treze teóricos reconhecidos, em ensaios que investigam a respeito dos limites e possibilidades da palavra poética na literatura brasileira atual. Outro é o  livro da psicanalista Silvia Lobo, intitulado “Mães que fazem mal”, um estudo sobre mães que, involuntariamente, às vezes até por excesso de cuidados, acabam por fazer mal aos seus filhos. Estes pela Pasavento. Pela Reformatório, entre outros, vem o livro do escritor Menalton Braff, um volume de contos inéditos.

Qual é o conceito da editora na seleção dos títulos que publica? O que jamais publicaria?

Nesta linha de publicar literatura brasileira contemporânea, temos tentado manter uma cota de pelo menos 20% do catálogo para publicação de poesia, gênero que, comercialmente falando, é sempre mais difícil de se trabalhar. Outra parcela importante do catálogo é a de promover estreias, apresentar novos autores. Toda a primeira avaliação de originais é feita por mim e pelo meu sócio. Quando não temos um consenso, por exemplo, quando um dos dois gosta muito de um original e o outro não, recorremos a um Conselho Editorial que definimos: uma professora doutora em teoria literária, um escritor muito experiente (amigo nosso) e uma leitora voraz, mas sem conhecimento técnico, que é a minha mãe. Muitas vezes também consultamos os próprios autores (amigos) já publicados pela editora. Não publicaríamos de jeito nenhuma autoajuda, religião e livros de negócio.

Qual sua experiência como autor?

Publiquei os romances “O Espúrio”, 2007 (traduzido e publicado na Alemanha em 2013), “O Corifeu Assassino”, 2009 (traduzido e publicado na Itália em 2014), ambos pela LCTE Editora, e Reminiscências, 2013, (editora Reformatório). Em 2014 organizei os livros “Grenzenlos”, antologia de contos que reuniu 25 autores brasileiros – até então inéditos fora do Brasil, publicado na Alemanha pela Editora Verlag e “Crônicas da UBE” (Editora Pasavento), antologia de crônicas com 30 autores brasileiros filiados à União Brasileira de Escritores, onde fui Secretário Geral durante a gestão 2013/2014. Em 2015 fiz parte do júri do ProAC, nas categorias “Autores inéditos” e “Coleções de editoras”.

Como avalia o panorama do mercado editorial brasileiro?

Esta é uma pergunta difícil. Acho que quase ninguém consegue entender bem o mercado editorial brasileiro. Ainda mais num cenário complexo de crise, falta de leitores, falta de educação, falta de bom-senso, ódio e intolerância. Por aqui pensamos nos livros não só como produto ou negócio, mas também como importante ferramenta de resistência política, social e cultural. Fora isso, em tempos de autopublicação, de livros eletrônicos e de um momento balbuciante com a consolidação da Amazon, da Google Livros e outras gigantes no país, alguns especialistas estão intuindo uma política predatória que visa o monopólio não só comercial, mas também editorial num futuro a médio prazo.

Você acredita nessa hipótese?

Não creio muito nisso. O que vejo, são dois extremos; as grandes e médias editoras se associando, criando grandes conglomerados editoriais, muitas vezes com capital estrangeiro, interessadas em publicar aquilo que sabem ter venda garantida, como livros mais populares, os “booms literários mundiais”, autores brasileiros renomados e reconhecidos, também com uma previsão de venda garantida, os grandes clássicos e toda uma série de livros que, para nós, são duvidosos, no sentido de qualidade literária. Consequentemente, são esses livros que dominam as prateleiras das grandes livrarias.

E do outro lado?

Estamos nós, as pequenas editoras, que por trabalharem com estrutura reduzida, custo operacional baixo e com o dinheirinho contado para fazer suas publicações, têm que avaliar muito bem cada publicação. Com isso, hoje, cabe a nós, pequenos editores, apostar e apresentar os novos autores, e buscar um trabalho mais personalizado, a cada livro, algo praticamente artesanal, não só na feitura dos livros, mas também nas vendas e distribuição, que se dá em feiras e eventos literários, lojas virtuais, e, no nosso caso, na parceria com pequenas (e muito mais charmosas) livrarias de bairro e centros culturais.

Essa fórmula dá certo?

É claro que isso restringe um pouco o acesso do grande público, mas por outro lado, temos um “nicho”, ou um pequeno público interessado em descobrir o novo, acompanhar a produção destas pequenas casas, boa parte formado pelos próprios escritores, professores, estudantes de literatura, jornalista culturais. Como trabalhamos com pequenas tiragens, muitas vezes estes livros acabam por esgotar rapidamente, alguns transformando-se, inclusive, em “produtos meio gourmetizados”. Como diz o escritor Marçal Aquino, “no Brasil somos 1.000 leitores de literatura brasileira contemporânea, a gente se lê.” Se um livro de autor brasileiro vivo atingir estes mil leitores, esta é para nós uma marca impressionante. Enfim, é difícil para mim falar de mercado. Em tempos de conglomerados e grandes fusões mundiais, de hipermercados, nosso negócio ainda se dá em forma de quitanda, com as contas anotadas em cadernetas.

Sua editora tem vários livros indicados em prêmios importantes. O que isso traz?

Acho que traz uma pequena popularização do livro quando saem as listas com os indicados, um interesse fora daquela bolha que disse, dos mil leitores. Abre-se também um espaço maior de divulgação e mídia para o livro. Atrai um pouco mais a atenção dos livreiros e distribuidores. Dá à editora um pouco mais de visibilidade e também algum “status”, se é que podemos usar esta palavra neste universo. Traz reconhecimento por parte dos especialistas em literatura, não só a editora, mas ainda mais ao autor. Agora, tudo isso não se traduz em grande aumento nas vendas, talvez porque os maiores interessados nestes prêmios já estejam dentro da bolha dos mil leitores.

Quais os maiores desafios para quem, como você, acredita e trabalha com livros?

O desafio é sempre financeiro. Conseguir manter o seu negócio sem prejuízos, pagar as contas, conseguir fazer bons livros, tanto em qualidade literária quanto do produto gráfico final, e, por tudo isso, não ceder às tentações… Um exemplo: este ano recebi uma proposta (tentadora, financeiramente falando) para editar um livro de um pastor evangélico famoso. O aporte financeiro daria para manter a editora por uns dois anos. Em compensação teríamos que dedicar pelo menos um ano inteiro ao trabalho, que ia desde a escrita do livro até a entrega do livro com uma tiragem inimaginável pra gente. Pensamos até em terceirizar o trabalho, mas ainda assim teríamos que nos envolver, comprometendo boa parte do nosso tempo e da nossa energia produtiva. Entre vender a alma ao diabo ou continuar livre para fazer aquilo que se gosta e realmente acredita, não pensamos duas vezes para ficar com a segunda opção.

Além da edição, você também tem outros projetos na área editorial?

Tenho meu projeto como escritor. Também ministro oficinas de leitura e escrita e cursos de edição de livros voltados para aqueles que pretendem iniciar uma pequena editora, escritores e demais interessados em conhecer o mercado editorial e gráfico. Ainda presto consultoria gráfica (como técnico), profissão que mantenho e de onde ainda tiro meu sustento. Meu sócio também tem outra atividade profissional; é professor. Com seis anos de editora não temos mais grandes prejuízos, mas também não há lucro nem retiradas, o pouco que entra na editora é sempre reinvestido.

Livrarias e editoras fechando. Acha que 2019 poderá ser melhor?

Ainda não consigo prever o futuro… Se assim fosse, só publicaria livros de sucesso entre aqueles mil leitores e com prêmios literários garantidos. Sou um tanto pessimista por natureza, mas ao mesmo tempo tenho sempre arrebatamentos de grande animação que me fazem continuar acreditando naquilo que faço com amor e dedicação sem me preocupar muito com fatores externos. Quem sabe com um novo governo mais interessado em investir na cultura, na educação… Que consiga não só ajustar a economia do país, mas também que volte a comprar livros para fomentar a leitura nas escolas e abastecer as bibliotecas públicas. Há também um outro compromisso de todos nós – profissionais do livro: autores, editores, professores – o de tentar formar leitores. Sem eles o livro não faz muito sentido. Segundo pesquisas recentes, 60% da população brasileira não tem o hábito da leitura. 50% da população nunca comprou um livro na vida, e 40% nunca leu um livro na vida. Ou seja, há um potencial enorme aí.  Sejamos otimistas, sem a necessidade de livros de autoajuda.

Sony usará tecnologia blockchain na próxima geração de gerenciamento de direitos digitais (DRM)
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Professor ilustra seu dia a dia em quadrinhos divertidos
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O professor primário Colm Cuffe, do condado irlandês de Galway, cria ilustrações superdivertidas sobre o seu cotidiano. Os quadrinhos mostram curiosidades e situações cômicas de seu ofício. E como mesmo quem não é professor já foi aluno em algum momento, serve para todos – se divertirem, se reconhecerem, e refletirem:
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Netflix investirá mais 2 bilhões de dólares em conteúdo original
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Para presidente da Câmara Brasileira do Livro, falta de leitura favorece notícias falsas
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Na noite do próximo dia 8 de novembro, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, será realizada a 60ª edição do Prêmio Jabuti – considerado o principal reconhecimento e a mais tradicional honraria aos livros e aos escritores no Brasil. Em entrevista à Agência Brasil, Torelli falou sobre a premiação, a importância da leitura para a sociedade e sugeriu a ampliação de iniciativas que tenham como foco as bibliotecas. O especialista destacou ainda a importância da leitura e do conhecimento para o combate à disseminação de notícias falsas (fake News).
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O programa experimental Wattpad Next, que financia autores via pagamento dos leitores, será disponibilizado em quatro mercados: a sede da empresa no Canadá, bem como o Reino Unido, as Filipinas e o México. Para saber mais, acesse o link https://nextbeta.wattpad.com/
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Como a realidade virtual estimula a empatia nos usuários
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Um trabalho publicado na revista online PLOS ONE revelou que o uso de realidade virtual pode ajudar a estimular a empatia entre seus usuários. Liderado por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, o estudo tinha como objetivo investigar se, ao colocar o participante na pele de outra pessoa e lhe fornecer outra perspectiva, seria possível instigar nela um comportamento altruísta.
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