O Cerlalc tem novos projetos para a leitura

Por Ivani Cardoso

Marianne Ponsford, diretora do Cerlalc, já esteve em Salvador e conhece a obra de Euclides da Cunha, Guimaraes Rosa, Rubem Fonseca e Luis Ruffato. Lamenta que a falta de professores leitores seja uma realidade no Brasil e em vários países da América Latina, dificultando o incentivo para a formação de leitores. Seu maior sonho é dar às crianças da região acesso a livros infantis de alta qualidade. Nessa entrevista, revela ainda a produção pelo Cerlalc de um catálogo de livros em espanhol da América Latina.

Leia a íntegra da entrevista:

O que é o Cerlalc?
O Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina y el Caribe é uma organização internacional que trabalha com a Unesco na criação de condições para o desenvolvimento de sociedades leitoras. Para cumprir esse objetivo, dirige suas ações para a promoção da produção e circulação do livro, promoção da leitura e da escrita, formação de atores na cadeia de livros e o encorajamento e proteção da criação intelectual. Nesse sentido, fornece assistência técnica na formulação de políticas públicas, gera conhecimento, dissemina informações especializadas, desenvolve e promove processos de treinamento e promove espaços de consulta e cooperação.

Quando assumiu? Qual é a sua função?
Assumi a direção do Cerlalc no dia 1o. de outubro de 2015 por um período de dois anos. Minha função no Centro é atuar como um eixo articulador em torno de políticas públicas e projetos de leitura, o livro e as bibliotecas nos países membros. Outras atribuições são garantir o cumprimento das disposições do Acordo de Cooperação assinado pela UNESCO e trabalhar para o cumprimento da Convenção de 2005 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.

Quais os principais projetos do Cerlalc?
Estamos construindo um catálogo de livros em espanhol da América Latina. É uma missão titânica, muito importante para dar visibilidade aos livros de pequenas editoras. Nesse momento, apoiamos a três países da região na construção de seus Planos Nacionais de Leitura e leis para desenvolvimento de leitores. Nossa principal pesquisa (temos 16 em andamento) é sobre como os governos podem promover um mercado comum de livros na região. Este documento será levado à Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo da América Latina que será realizada em Antígua, em 2018.

​​Quais os países em que processo da leitura está mais atrasado?
A região Ibero-Americana é muito assimétrica e tem diferentes realidades sociais, políticas e econômicas, de modo que cada país tentou, dentro das suas possibilidades, responder às necessidades que considera prioritárias. Infelizmente, a leitura nem sempre está dentro dessas prioridades. No entanto, o panorama geral da região mudou: a maioria dos países agora tem um Plano Nacional de Leitura e uma Política de Livro. Da mesma forma, muitos governos da região promovem legislação para desenvolver a leitura e entender cada vez mais a importância de ter sistemas nacionais de bibliotecas públicas.

Há pesquisas sobre o comportamento leitor da região?
No que diz respeito ao comportamento leitor, a região ainda não possui critérios padronizados e, portanto, cada medição dá conta de parâmetros muito diversos. É por isso que ainda não temos os indicadores que nos permitem fazer uma comparação justa sobre as diferenças na região. Continuar a fazer comparações com base no número de livros lidos, e no livro como uma unidade de medida, reduz a compreensão de um fenômeno tão complexo quanto o comportamento de leitura e limita o potencial de esforços para promover a leitura.

Como incentivar o prazer da leitura entre crianças e jovens nativos digitais?
O termo “nativos digitais” é usado para se referir a um grupo geracional que, embora possa ter semelhanças, tem características muito diferentes determinadas por diferentes contextos sociais e econômicos. Muitas dessas crianças e jovens que, por sua idade, podem ser considerados “nativos digitais” ainda não têm acesso a novas tecnologias, e outros não possuem as habilidades básicas necessárias para usá-las. Com isso em mente, pode-se dizer que o uso crescente de dispositivos digitais e novas tecnologias ampliou a noção de leitura e coloca em jogo outras formas de leitura que não se opõem necessariamente às formas de leitura consideradas “tradicionais”. Portanto, no contexto atual, é crucial que a promoção da leitura inclua estratégias que levem em conta as novas maneiras pelas quais as crianças e os jovens abordam textos escritos e estabelecem conexões entre esses novos formatos e suportes de leitura e os suportes mais tradicionais como o livro.

Acha que celulares e outros dispositivos devem fazer parte do cotidiano escolar?
Há muitos contextos, no presente, nos quais os dispositivos digitais fazem parte do ambiente escolar. A tecnologia oferece recursos que podem melhorar as estratégias pedagógicas e, nesse sentido, podem ser uma ferramenta educacional útil. No entanto, a questão aqui é como e por que esses dispositivos são usados na escola, como eles são articulados com outros recursos pedagógicos e quais objetivos eles querem alcançar quando são usados. Em nenhum caso, a tecnologia deveria ser um fim em si, pelo contrário, deve ser usada sempre como uma ferramenta para alcançar objetivos de aprendizagem concretos. Por esta razão, os dispositivos digitais devem ser utilizados na escola como um recurso educacional para facilitar o desenvolvimento da criatividade e a geração de novas formas de construção do conhecimento.

Acredita que as redes sociais atrapalham o processo da escrita e afastam crianças e jovens dos livros?

Há uma ideia geral de que os jovens hoje não leem, quando na verdade passam muito tempo lendo e produzindo textos. As redes sociais são um dos ambientes que priorizaram a presença de escrita no cotidiano dos jovens. Além disso, as redes sociais ajudam a desenvolver diferentes iniciativas para disseminar e promover livros e leitura. Recentemente, até mesmo redes sociais especializadas foram criadas na área de leitura e aplicativos móveis que propõem novas formas de abordar literatura e, em geral, textos. A afirmação de que as redes sociais afastam as crianças e os jovens dos livros é pelo menos imprecisa e ignora esses novos mecanismos de produção e circulação da cultura escrita que são amplamente determinados pelas redes sociais.
Quais os passos para a criação de Planos de Leitura?

Os Planos de Leitura são os mecanismos que concretizam e fortalecem a política pública de um Estado no campo da leitura. Para começar a criar um Plano de Leitura devemos entender primeiro a relação bidirecional entre as políticas públicas que apoiam e garantem a continuidade e a sustentabilidade dos planos e as formas como esses planos se traduzem em ações concretas. Em segunda instância, é necessário entender que os Planos de Leitura carecem de processos inclusivos e participativos que, embora coordenados por governos, tenham diferentes atores da sociedade civil nas diferentes fases (formulação, execução ou desenvolvimento e avaliação).

Do que depende o sucesso de um Plano de Leitura?
A consolidação deve começar desde o mais conceitual (ou seja, da própria concepção da leitura) e passar pelo contexto, que inclui tanto os diagnósticos quanto o quadro legal em que o plano está circunscrito, até chegar ao mais operacional, que é a própria instrumentalização do plano. Por sua vez, este componente operacional se refere não apenas ao projeto realizado por uma equipe técnica com objetivos, metas e linhas de ação, mas inclui a criação de uma estrutura organizacional que responda às peculiaridades políticas e administrativas de cada país. Também é preciso a consolidação de estratégias com outras entidades e a articulação do trabalho, a gestão dos recursos e, finalmente, algo que muitas vezes é esquecido, os processos de monitoramento e avaliação constantes que permitem que o plano possa ser fortalecido ou reformulado, se necessário.

As feiras de livro continuam sendo importantes para a formação de leitores?
São cada vez mais. Os números de vendas nas feiras estão subindo em todo o território hispano-americano. Na Espanha, entre umas e outras, as vendas subiram 10% esse ano. Em Buenos Aires, Lima e Bogotá, as feiras tiveram resultados recordes de visitantes e vendas. As feiras são eventos cada vez mais poderosos na região.

Quando começou a ler?
Comecei a ler desde pequena. Minha mãe quando se deu conta de que eu gostava de ler e me comprava muitos livros. Tive muita sorte. Eu leio fundamentalmente romances, contos e poesia, além de jornalismo narrativo. Deveria ler mais, no entanto não se pode fazer tudo na vida. Sempre quis fazer livros, ser editora. No fundo, era o mais próximo da leitura e ainda recebia um salário.

Qual é o seu maior sonho no campo do livro e da leitura?
Que todas as crianças da América Latina tenham acesso a livros infantis de alta qualidade.

(*) Marianne Ponsford é diretora do Centro Regional para el Fomento del Libro en América Latina y el Caribe – Cerlalc. Estudou Ciências da Comunicação na Pontificia Universidad Javeriana, de Bogotá, e fez mestrado em Estudos Hispâinicos na University College, em Londres, Inglaterra. Sua vida profissional é voltada para edição e Jornalismo. Trabalhou como editora em Siruela, Planeta e Turner, além de fundadora da revista cultural El Malpensante. Atuou ainda na direção geral da revista Cromos,  foi membro do Conselho Editorial do jornal colombiano El Espectador   e criadora da revista cultural Arcadia. Foi idealizadora do Festival Arcadia de librerías, realizado em Bogotá em 2012 e 2013.

The Markets, sempre uma boa programação em Frankfurt
Da Redação

The Markets  é a conferência realizada na terça-feira antes da abertura da Feira de Frankfurt, onde profissionais da indústria editorial obtêm perspectivas únicas sobre áreas e regiões novas e emergentes do setor editorial. É um espaço de troca de ideias e encontros entre os líderes do mercado.
Leia a íntegra da nota

McGraw-Hill e iFlipd testam programa de aluguel semanal de livros didáticos
By Porter Anderson
25/08/2017

Numa ação a ser destacada no mercado de livros didáticos, a McGraw Hill Education e a iFlipd – uma plataforma de aluguel de livros didáticos – fecharam parceria para permitir alunos alugar livros da McGraw Hill tanto no formato digital quanto impressos, a 15 dólares por semana.
Leia mais em inglês

Facebook anuncia escola de programação no Brasil com 7.400 bolsas de estudo
Olhar Digital
Gustavo Sumares
28/08/2017

O Facebook anunciou a “Estação Hack”, um centro de educação e inovação tecnológica voltado para jovens interessados em programação e empresas digitais. O espaço oferecerá bolsas a mais de 7.400 jovens brasileiros por ano nas áreas de programação, planejamento de carreiras e gestão de empresas.
Leia mais

As redes sociais para escritores que você precisa conhecer
Ink It
Ana Azuela
09/08/2017

Para os autores, estas plataformas são grandes ferramentas para publicar um livro na Internet, promover sua obra, aproximar-se dos leitores, criar parcerias com blogs e outros escritores e até conseguir projetos com editoras e marcas que busquem novos talentos. Não soa mal, certo?
Leia mais em espanhol

Como a Inteligência Artificial já está mudando salas de aula no Brasil e no mundo
BBC
Paula Adamo Idoeta
25/08/2017

Em uma aula de História do Brasil, por exemplo, o professor pode selecionar online as questões que quer desenvolver em classe; pede aos alunos que assistam aos vídeos para se prepararem para a aula e, depois dela, completem os exercícios também via internet.
Leia mais

Refugiado sírio desenvolve videogame em que o objetivo é cruzar a África e chegar a Europa
ABC
Rosália Sánchez
24/08/2017

Muitos adultos estão preocupados que os jovens não diferenciem a realidade e a realidade virtual, mas, neste caso, a realidade de um videogame certamente servirá para levar muitos meninos à realidade de um refugiado, viver em primeira pessoa a aventura que significa fugir da guerra para tentar alcançar a Europa a todo custo.
Leia mais em espanhol

Estante
Dois anos de férias
Editora: Via Leitura
Autor: Júlio Verne
Páginas: 352
Preço: R$ 49,00
ISBN: 9788567097435

Publicada pela primeira vez em 1888, a obra mostra outra característica da escrita do francês, a aventura. Para escrever este livro, Verne contou com o grande conhecimento que tinha sobre o universo náutico e coloca uma tripulação de crianças à deriva no imenso mar do Pacífico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

0