HQs, uma porta para despertar a leitura

Por Ivani Cardoso

André Diniz tentou fazer as faculdades de Desenho Industrial e Jornalismo, mas não conseguiu concluir. Como mergulha de cabeça no que desperta o seu interesse no momento, não se adaptou às aulas tradicionais. “Se eu estou pesquisando sobre um assunto, desenhando um livro ou estudando, posso ficar quatro meses com isso fixo na cabeça, esquecendo da barba por fazer e das contas a pagar”. Ele se encontrou na linguagem das HQs, unindo narração e ilustração, e está otimista: “Em nenhum lugar do mundo o cenário das HQs se compara ao do Brasil, com tanto vigor, explosão e diversidade criativa dos autores”.

Confira a íntegra da entrevista:

Quando surgiu a ilustração em sua vida?

O meu desenho sempre esteve em função de um objetivo: contar histórias. Com a linguagem dos quadrinhos, essa junção entre ilustrar e narrar é perfeita. Desde as minhas primeiras lembranças da vida, e olha que vêm lá dos 3, 4 anos de idade, eu já dizia que “quando crescesse” eu ia ser autor de histórias em quadrinhos. Minhas primeiras histórias em série eram escritas enquanto eu me alfabetizava. Então, o meu trabalho com quadrinhos e ilustração nunca surgiu na minha vida, as duas coisas vieram juntas, parece.

Por que mudou para Portugal? E definitivo?

Eu já me mudei definitivamente para Petrópolis em 2003 e definitivamente para São Paulo em 2011. Sendo este o meu currículo, eu digo que, sim!, é definitiva a mudança para Portugal. Algumas questões se somaram, e a violência nas grandes cidades brasileiras está no topo da lista. Mas venho publicando na Europa desde 2011 e criei um vínculo muito bom em Portugal, tanto profissional como pessoal – eu já tinha vários queridos amigos aqui antes de vir de vez. A oportunidade de novas experiências também motivou a mim e a Marcela, minha mulher. Por fim, encontramos em Lisboa uma equação que buscávamos há anos: uma capital cosmopolita, mas pacata, tranquila e segura, nada parecido com o caos que já conhecíamos bem.

Como avalia a situação das HQs no Brasil?

Evito usar o termo mercado porque aí compreende a questão do lucro, da remuneração, e aí a conversa já não fica tão empolgante. Mas se considerarmos o cenário das HQs no Brasil, entendendo por isso toda a explosão e diversidade criativa dos autores brasileiros, posso apostar que em nenhum lugar do mundo isso se dá com tanta fúria e vigor como no Brasil. Algumas editoras e estudiosos pela Europa já começam a se interessar por esse movimento, e é cada vez mais comum títulos brasileiros sendo traduzidos para outras línguas.

E como está Portugal nesse gênero?

Portugal também é um desses países interessados pelos quadrinhos brasileiros, ao mesmo tempo em que eles próprios entram nos últimos anos em uma fase rica, diversa e produtiva como a nossa. A questão é que a população brasileira é quase 20 vezes maior que a portuguesa, então isso, é claro, influencia, pois temos mais festivais de quadrinhos, mais leitores (numa proporção muito menor que 1/20, infelizmente) e mais autores. O Brasil acaba chamando mais a atenção, mas as HQs portuguesas (ou como eles chamam por lá, as BDs – de bandas desenhadas) estão também em um ótimo momento e crescem a cada ano.

Como a tecnologia influenciou o seu trabalho?

Na nossa área, dificilmente há alguém hoje que não se utilize de alguma forma da tecnologia, nem que seja para a pesquisa de imagens de referência ou para corrigir imperfeições. Mas há também os 100% digitais e eu entro certamente no topo dessa lista. Uso o digital desde a gênese de tudo, o anotar ideias, escrever textos, esboçar os primeiros desenhos, até o trabalho em si e a finalização. Nem é uma questão de usar filtros ou efeitos que só o computador permite, o meu desenho é basicamente feito com traços pretos irregulares, algo que eu poderia perfeitamente obter no papel. O digital é talvez o único local onde eu consigo de fato organizar as minhas ideias e transformar aquele caos que são as ideias brutas atormentando a minha cabeça em algo concreto.

Isso vale para o desenho?

Sim, pois eu vou desenhando e modificando todo o desenho ao mesmo tempo, puxando essa forma para um canto, apagando esse rosto e desenhando outro no lugar, e aí redesenhando todas as ocorrências anteriores do mesmo rosto na história. Hoje, com um tablet na bolsa eu tenho todo o meu estúdio. Para alguém que viaja muito e volta e meia muda de apartamento, essa praticidade é muito bem-vinda. Posso trabalhar num cantinho da sala, antes eu precisaria de todo um cômodo.

Como definiria o seu estilo?

O meu desenho tem dois grandes nortes: a arte africana e a estética da xilogravura. Minha mão é pesada, meu olhar é bruto e esses estilos me apontaram caminhos de exagero e distorção que não puxam para o cômico. Se faço um traço a lápis, a ponta quebra, tamanha é a pressão que eu ponho no papel. Os meus olhos enxergam quadrados e círculos, eles não têm a sutileza necessária para fazer um desenho realista. Mas eu sequer busco isso, pois penso que quanto mais nos afastamos do realismo, mais a imaginação precisa recriar o mundo, e isso é o que me fascina. Essas particularidades da minha mão e do meu olhar me pareciam obstáculos nos primeiros anos, quando eu buscava uma arte convencional, mas foram o meu trunfo na busca de um estilo.

Quais os seus projetos atuais?

No finzinho de 2017, lancei no Brasil e Portugal Olimpo Tropical (HQ onde eu escrevi a história e o parceiro Laudo Ferreira brilhou com os desenhos), Matei Meu Pai e Foi Estranho no Brasil (sai em Portugal este ano). Minha adaptação do clássico de Dostoiévski, O Idiota, numa HQ quase sem textos, foi publicada no mesmo período em Portugal e agora sai no Brasil pela Quadrinhos na Cia, selo de HQs da Companhia das Letras.

E o que ainda vem por aí?

Agora, finalizo minha nova HQ Malditos Amigos, cujo protagonista, um tatuador do centro velho de São Paulo, enfrenta o fantasma da depressão e estafa das grandes cidades. Não é autobiográfico, mas empresto ao personagem a minha experiência pessoal com uma depressão muito diferente desse modelo mais difundido. A depressão que vem quando tudo parece bem na sua vida, e que mina a sua atenção, concentração e te derruba em seguida pela estafa, apatia e por uma visão absolutamente negativa de tudo e de todos. É uma HQ contada com humor, mas que não doura a pílula nem traz conclusões simplistas.

Quem são suas referências?

Graficamente, é impossível não destacar Flavio Colin, gênio dos desenhos, com quem tive a imensa honra de fazer uma HQ em parceria – Fawcett – apenas dois anos antes da sua morte. Já na arte da narrativa, talvez a minha influência venha mais de filmes e da literatura, mas de uma forma mais difusa, sem nomes específicos para destacar. Dois nomes nos quadrinhos me ensinaram a narrar para esta linguagem: Will Eisner e Carl Barks. Barks foi o criador do Tio Patinhas e de todo aquele universo da Disney, e embora estejamos falando de quadrinhos infantis, a forma como ele dominava o ritmo e a estrutura das suas histórias, sem falar numa criatividade absurda. É um estudo obrigatório para qualquer contador de histórias gráficas.

O que acha do uso de HQs nas escolas?

Saí da escola sem gostar de História e a minha paixão por esse tema só veio depois, lendo por conta própria e descobrindo que por trás daqueles eventos, daquelas guerras, das revoluções e das quedas de impérios, estavam pessoas de verdade, corajosas, covardes, excêntricas, hipócritas, ignorantes ou diabólicas, fossem o que fossem. Os quadrinhos são uma linguagem maravilhosa para trazer ao jovem esse tipo de abordagem mais envolvente e interessante, não com o objetivo de substituir qualquer outra abordagem, mas sempre com o intuito de somar.

Qual é a atualidade das HQs?

Por ser uma linguagem também visual, ela ajuda a conceituar uma época, um personagem, um evento de uma forma mais concreta e detalhada, o que também é um recurso de grande riqueza. Parte das minhas HQs foram criadas com esse objetivo, geralmente criando personagens fictícios em contextos sociais e históricos, o que permite ao mesmo tempo falar de fatos e usar as possibilidades da ficção. Vários destes títulos foram adotados em escolas ou comprados pelos governos federal ou estaduais, o que foi para mim uma honra.

Quantos livros publicados? Você tem obras no Exterior?

Creio que eu já tenha passados dos 30 títulos de quadrinhos publicados até hoje. Tenho ainda um romance de aventuras para o público juvenil – A Incrível História do Homem Mais Velho do Mundo, publicado em 2010 pela Galera Record. Fora do Brasil, estou às vésperas da publicação do meu sétimo livro, o primeiro tendo sido a HQ Morro da Favela, que foi publicada também na França, Inglaterra e Polônia.

Quais os maiores desafios de trabalhar com HQs?

Cada passo é um desafio verdadeiro. Nem sempre as pessoas imaginam, mas dar um bom título a um livro, seja ou não quadrinhos, é muitas vezes algo enlouquecedor. Posso também citar um desafio-chave, que é a dificuldade de fazer dos quadrinhos a sua fonte de renda e poder assim dedicar a eles todo o tempo que se gasta na sua criação. Mas se é para resumir todos esses desafios em um, eu diria que o maior deles é fazer uma obra que atraia a atenção e a curiosidade do leitor de hoje, que já tem milhares de opções de livros para ler à distância de um clique.

Como fazer isso?

O autor tem que convencer aquele leitor de que, entre todos os títulos disponíveis e ainda filmes por streaming, sites e redes sociais, ele deve escolher o seu livro, logo o seu, para a ele dedicar uma parte do seu escasso tempo e atenção, e ainda gastar parte do seu dinheiro para comprá-lo, sendo fundamental que ele leia o livro de verdade em vez de abandoná-lo na estante. Para, no fim de tudo, ficar na vontade de ler uma próxima HQ desse mesmo autor e ainda recomendá-lo aos amigos.

Acha que o mundo dos quadrinhos leva crianças e jovens para a leitura?

Eu iria além, digo que os quadrinhos já são a leitura em si. O grau de amadurecimento da linguagem dos quadrinhos e a diversidade do que se produz e se edita hoje já deixam para trás essa ideia de que os quadrinhos devem levar à leitura de verdade. Nesse meu processo de depressão que citei acima, tive uma experiência muito curiosa. Minha memória e minha concentração caíram a níveis mesmo baixos. Por mais curioso que pareça, ainda era mais fácil para mim ler um romance do que ler um quadrinho.

E com as crianças?

Claro que se pegarmos como parâmetro o quadrinho infantil, com uma linguagem mais limpa e direta – nem por isso menos rica – é mais difícil entender isso, mas um quadrinho que vá além do esperado e não subestime o leitor é por vezes uma leitura pra lá de complexa. Agora, se pensarmos nos quadrinhos como uma primeira porta de interesse da criança e do jovem pelo hábito da leitura, hábito que vai extrapolar os quadrinhos e se espalhar por todos os tipos de leitura, não tenho dúvida alguma desse potencial das HQs. Até porque eu mesmo sou um exemplo disso.

 

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