HQs estimulam a alfabetização

Por Ivani Cardoso

José Alberto Lovetro é presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil e lançará em breve um livro com a experiência inédita de trabalhos com HQs nas escolas, em parceria com a professora Sonia Luyten. O resultado é surpreendente, com a evolução de estudantes de 10% a 100% no aproveitamento em várias matérias. JAL atuou nos principais veículos de comunicação do país, é um dos criadores do Troféu HQMIX e está à frente do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, com início dia 26/08.

Confira a íntegra da entrevista: 

Você está envolvido em dois eventos importantes, poderia falar sobre seu trabalho?
Sou cartunista e jornalista. Comecei a publicar meus desenhos em 1973 na Folha de São Paulo e depois trabalhei em diversos veículos de comunicação entre jornais, revistas, rádio, TV e internet. Em 1988 criei com o Gualberto Costa o Troféu HQMIX, que ano que vem completa 30 anos e é reconhecido como o maior troféu da área na América Latina. Junto ao Troféu também criei a Associação dos Cartunistas do Brasil, uma entidade informal e de voluntariado, mas muito atuante na representação do desenhista brasileiro. Podem conferir pelo site www.hqmix.com.br

Ainda há lugar para o humor nesse nosso país?
O humor, e em especial o humor gráfico, nunca saiu de moda no Brasil. Basta ver que é uma das maiores procuras na internet. Talvez fique atrás só do tema “sexo”. O povo brasileiro vive o humor no dia a dia não apenas por diversão, mas por necessidade. Portanto, a importância do trabalho dos cartunistas é primordial. Só não é valorizado financeiramente na mesma proporção. Por isso, há sim uma crise na área de charges, cartuns e ilustrações como profissão. Por incrível que pareça, os jornais e revistas impressos estão cada vez menos utilizando essa linguagem que é justamente um foco de interesse de leitores, após já terem sido bombardeados pelas noticias online durante todo o dia.

Por que esse trabalho faz a diferença?
Um impresso precisa ter algo diferenciado, um filtro do que já foi noticiado, que é a área de arte, para haver ainda algum interesse em comprarem essa publicação no dia seguinte às noticias. Há uma crise nas vendas de jornais e revistas que poderia ser minorada pela criatividade de nossos autores. Uma charge, por exemplo, tem 100% de leitura, o que não acontece com a coluna econômica, a página política ou mesmo o horóscopo.

Estive há pouco tempo nos EUA e comprei o Washington Post. No domingo, além de ter 4 charges de desenhistas diferentes, a edição tem um suplemento de quadrinhos em cores de oito páginas standard. O mesmo que nas décadas de 30, quando houve a invasão dos quadrinhos nos jornais americanos. Temos os melhores desenhistas, mas não tão bons editores.

Qual é o segredo para o Salão de Humor de Piracicaba continuar de pé por mais de quarto décadas?
O Salão Internacional de Humor de Piracicaba nasceu em plena ditadura, logo após o jornal de humor O Pasquim, e foi tão importante quanto o jornal no enfrentamento do governo militar para que a imprensa ainda pudesse sobreviver à censura implantada. Então suas raízes são fortes e seu reconhecimento é mundial. Hoje é um dos principais e dos mais antigos do mundo.

Quais são os destaques da próxima edição do Salão?
São muitos. Teremos cerca de 10 a 15 exposições, oficinas de humor gráfico, a Feira do livro de humor e quadrinhos, a Feira Gastrocômica, shows, o Salãozinho com desenhos de crianças das escolas e a vinda de três grandes cartunistas de fama mundial. Jean Mulatier é um caricaturista francês considerado o “papa” da caricatura, Arturo Kemchs é o maior destaque da charge no México e o colombiano Zuleta, um dos mais premiados cartunistas no mundo. Posso garantir que é uma viagem inesquecível na época do Salão e, além das exposições com entrada gratuita, há várias outras atrações. Pode levar a família.

O que foi pensado para os jovens?
Os jovens vão adorar exposições com diversos estilos: as exposições do Mulatier, com caricaturas de personalidades mundiais, os cartunistas mexicanos, o Salão Latino americano de Humor com o tema “música latina”, os desenhos da Mariza, os shows de humor “satand up”, a Feira do Livro de Humor e Quadrinhos e as oficinas de desenho e humor gráfico. E ainda tem aquela maravilha que é o Engenho Central, onde a maioria dos eventos se concentram. Fica ao lado do Rio Piracicaba, com muito verde e os diversos galpões preservados que dão um clima de turismo cultural sem igual.

Quem são as revelações no mundo da charge?
O Brasil é rico nessa área, e a cada Salão tem novos desenhistas despontando com trabalhos tão bons quanto os de profissionais. Foi assim que um deles, o Dálcio Machado, de Campinas, surgiu através do Salão e hoje é um dos cartunistas mais premiados no mundo. Assim foi com a Laerte, premiado na primeira edição do Salão e assim por diante. Nas próximas semanas haverá a seleção dos cerca de 250 finalistas e poderemos ver quais serão os próximos Dálcios e Laertes.

HQs estão em alta em todo mundo. Como está o mercado no Brasil?
Nos quadrinhos está havendo uma evolução, apesar da crise. Tanto que os eventos de quadrinhos pelo Brasil estão crescendo a cada ano. O levantamento que fazemos todo ano sobre novos lançamentos para o Troféu HQMIX demonstra que em 2014 foram 1.700 lançamentos no ano, mas em 2015 e 2016 subiram para cerca de dois mil. Inclusive com grande quantidade e qualidade dos autores independentes.

Como surgiu a ideia de criar o Troféu HQMix?
Eu e o Gualberto Costa tínhamos uma coluna sobre quadrinhos no TV MIX da TV Gazeta, em 1988/1989. Duas vezes por semana, uma no TV MIX, com apresentação da Astrid Fontenele, e outra no TV MIX, com Serginho Groisman. Conversamos com o Serginho sobre a necessidade de ter uma premiação para a área que estava em pleno crescimento. Era a época do Chiclete com Banana do Angelí, Revista Animal, além dos infantis com Mauricio de Sousa e Ziraldo puxando várias outras publicações. O Serginho topou na hora e até hoje apresenta o Troféu como padrinho. Nesses quase 30 anos vimos passar pelo HQMIX toda uma produção de autores, editoras e pesquisadores de quadrinhos que irá se transformar em livro comemorando o 30º evento em 2018. Hoje sobrevive apenas com o apoio do SESC

Vencedores de edições anteriores tiveram destaque depois?
Muitos. O HQMIX funciona para valorizar a produção da área dos quadrinhos e, ao mesmo tempo, divulgar esses valores no mercado editorial. Basta ver que o troféu de revelações como desenhista e roteirista tem 100% de acerto na escolha de autores novos que irão se tornar celebridades mais tarde. Importante dizer que tudo isso pode ser realizado por conta de voluntários que amam os quadrinhos e nos ajudam na difícil organização de votação e do evento. E a essencial parceria do SESC Pompeia, que além de ser uma assinatura de respeito na área cultural nos fornece os melhores profissionais de seus quadros para fazermos um grande evento a cada ano.

O que você acha de incluir HQs na sala de aula?
Acho essencial e estamos próximos de ter uma ação nunca vista nessa área juntando quadrinhos, humor gráfico e educação. Eu e a professora Sonia Luyten vamos lançar nosso livro, que tem a experiência de termos trabalhado com exercícios dentro de escolas cedidas pela Secretaria de Educação da Cidade de São Paulo há alguns anos, e que foi surpreendente. O resultado foi evolução de estudantes de 10% a 100% no aproveitamento em várias matérias. Isso, sem gastar nenhum centavo.

E como passar essa experiência adiante?
Basta o professor seguir esses exercícios que são simples. Acreditamos que estará disponível já em agosto para que todos os professores possam utilizar e já ter resultados. Isso foi resultado de nossas pesquisas nos vários anos de batalha pelos quadrinhos. A Sonia Luyten é a criadora do curso de Editoração de Quadrinhos na ECA -USP nos anos 70, que até hoje é importante na Universidade. Ela também deu aulas durante anos em universidades do Japão, Holanda, França e Portugal.

Misturar clássicos com quadrinhos virou moda. O que acha disso?
As editoras perceberam que essa linguagem facilita muito o interesse dos alunos por autores da literatura. E é verdade. Os quadrinhos não substituem um livro, mas dão força para que os estudantes queiram se aprofundar depois lendo o livro no qual aquela versão foi baseada. Como a educação também é onde mais se consome livros e o governo os compra para distribuição, isso demonstra o quanto os jornais e revistas estão se perdendo na falta de uso de autores gráficos.

O quadrinho impresso ainda é essencial?
Claro, se não fosse assim o Mauricio de Sousa não teria cerca de 10 milhões de leitores/mês só dos gibis impressos. Aliás, é tão falácia a ideia de que as crianças estão deixando de ler no impresso para estar mais tempo nos eletrônicos, que no país onde mais existem games, animês e jogos eletrônicos é onde mais se vende quadrinhos impressos no mundo – o Japão. Justamente um país que não tem nem onde plantar árvore e compra papel a preços altos. Tanto no Japão como no Brasil o interesse em ler quadrinhos vem de uma infância que começa aos 4, 5 anos de idade. O quadrinho é o maior fator do estímulo à alfabetização que existe. Esses leitores guardam essa experiência gostosa e serão até o fim da vida leitores de quadrinhos. Basta ter publicações para eles.

Acredita que jovens que leem HQS depois se interessem mais por outros gêneros?
É uma constatação. Acaba de sair a biografia do Mauricio de Sousa “Mauricio a História que não está no gibi”. Ali ele fala como começou seu interesse por quadrinhos ao achar uma revista rasgada sobre o lixo. Ele tinha cerca de 4 anos e ficou tão interessado que pediu para a mãe ensiná-lo a ler para acompanhar as historinhas. Foi o que a mãe fez. Ele começou a ler tanto que depois, na juventude, passou dos quadrinhos para os livros. Chegava a ler um livro por dia. Hoje ele, em suas palestras, pede para que levantem a mão quem aprendeu a ler através de seus quadrinhos. Dá uma média de 80% das pessoas nas plateias. E criança adora ser estimulada. Ou não haveria milhares de crianças em uma fila em frente às livrarias esperando abrirem para comprar o próximo livro do Harry Potter. E olha que esses livros são centenas de páginas de texto.

Em que países as HQs são mais valorizadas?
Evidentemente nos EUA são tão valorizadas que hoje em dia sustentam o cinema, com sagas baseadas nos heróis do século passado. Mas no Japão é onde há mais leitores no mundo. A Shonen Jump, um dos principais títulos dentre as centenas e centenas de títulos, vende cerca de 2,5 milhões de exemplares por SEMANA. Já vendeu 5 milhões em outras épocas.

No Ocidente temos o Mauricio, que tem a revista com maior vendagem que é a Turma da Mônica Jovem. Bate a vendagem do Homem Aranha nos EUA, que é o herói que mais vende por lá. E por isso podemos observar claramente que nosso mercado pode crescer umas três a quatro vezes mais se nossos editores perceberem esse potencial

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