Modelo escolar brasileiro é do século XIX

Por Ivani Cardoso

Parece que tudo que o professor português José Pacheco afirma tem a força da verdade. Por exemplo: “A aprendizagem é antropofágica. Os alunos aprendem o professor. O despertar da atenção do professor será o despertar da atenção do aluno…”  Quando faz esse ou outros comentários envolvendo o tema educação, sabe exatamente do que está falando. Ele conhece bem a realidade do ensino e sua bagagem nessa viagem traz muitas experiências do Brasil e de outros países. Mesmo apontando vários e sérios problemas na educação brasileira, há alguns anos ele resolveu morar no Brasil porque acredita que aqui está nascendo a educação do mundo:  “Não é no hemisfério Norte que novas construções sociais de aprendizagem tomam forma. É aqui, no Sul, que a inovação acontece. E eu gosto de estar onde posso aprender… “, ele diz. José Pacheco esteve à frente da Escola da Ponte, no Porto, em Portugal por mais de 30 anos. Ele revolucionou o ensino nesse centro educacional público e a escola virou referência justamente por deixar de lado elementos tradicionais da aprendizagem como provas e professor falando e escrevendo no quadro negro. Pacheco trabalha em um projeto para o Ministério da Educação (MEC) com um grupo de educadores brasileiros para identificar iniciativas educacionais inovadoras pelo país, visitando escolas, centros de pesquisas e universidades. Diz que agora o grupo está disperso e mostra o culpado: “A orientação política do MEC mudou e, como é habitual, o novo elenco ministerial não assumiu a continuidade do projeto. Mas continuamos o nosso trabalho e há muitas iniciativas inovadoras acontecendo”. O professor lançou um dicionário de valores em educação para auxiliar nos processos de aprendizagem, adotado em muitas escolas e universidades brasileiras. Para os interessados, ele foi disponibilizado recentemente para download gratuito.

Confira a íntegra da entrevista:

 Quanto tempo vai durar essa pesquisa e qual o objetivo?
A pesquisa continua e durará o tempo necessário para testar critérios de inovação. Cada um dos membros do grupo de trabalho age dentro das suas possibilidades. Não agimos como o MEC age. Somos responsáveis e cumprimos compromissos assumidos

Poderia citar algumas iniciativas inovadoras?
Poderia citar mais de duzentas. Mas quedar-me-ei por sugerir que se assista ao vídeo “Destino Educação – Projeto Âncora”. Perceberão por que razão aconselho a visão desse vídeo…

A tecnologia está sempre por trás de iniciativas inovadoras?
É evidente. As novas tecnologias são incontornáveis. A Internet não é uma ferramenta; é uma sociedade. Apenas será necessário saber o que fazer com as novas tecnologias. É certo que as escolas se têm enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunicação e a pesquisa. O modo como as escolas utilizam a Internet fomenta imbecilidade e solidão.

Quais os principais desafios da realidade educacional brasileira?
As escolas brasileiras transformar-se-ão quando, através da referência a uma matriz axiológica, a uma visão de mundo e sociedade traduzidas num projeto, operem rupturas com uma tradição de educação hierárquica e burocrática. Quando ousarem, com prudência, reconfigurar as suas práticas, assumir formas específicas de organização do trabalho escolar, em dispositivos de relação, nas atitudes do dia-a-dia, que viabilizem práticas de educação integral. Quando as escolas cumprirem, efetivamente, os seus projetos político-pedagógicos.

Nesses tempos de tecnologia, qual o papel do educador?
Com ou sem novas tecnologias de informação e comunicação, a escola precisa ser reinventada. Mas do modo como as novas tecnologias estão sendo introduzidas nas escolas, temo que se transformem em panaceias, que apenas sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade dessas tecnologias, acriticamente consumam, sem resquícios de cooperação com o aluno vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários, estabelecidos com identidades virtuais.

E como ficam os professores?
A Internet é generosa na oferta de informação. Basta clicar para repetir, até que a matéria seja compreendida. Tudo aquilo que um professor pode “ensinar” numa aula está plasmado, de modo mais atraente, na tela de um computador. Os professores do “futuro” irão manter-se ancorados em aulas obsoletas servidas por lousas digitais, ou irão atualizar-se? Irão replicar aulas congeladas no YouTube e em tablets, ou irão usar o digital ao serviço da humanização da escola?  A aprendizagem é antropofágica. Os alunos aprendem o professor. O despertar da atenção do professor será o despertar da atenção do aluno…

A experiência da Escola da Ponte poderia ser repetida no Brasil?
Não se creio ser possível (e muito menos aconselhável) querer fazer uma réplica da Ponte em outros países, mesmo no Brasil. As dificuldades encontradas no Brasil são idênticas aquelas que defrontamos em Portugal e outros países, onde ajudei a desenvolver projetos. Aquilo que vejo no Brasil é que começa a manifestar-se sensibilidade, nomeadamente da parte do poder público, relativamente à necessidade de criar condições de sustentabilidade de projetos, que considero inovadores.

O que falta ao Brasil?
Nos últimos anos, apesar da profusão de tentativas de reforma, programas, projetos, congressos, cursos e afins, não se logrou melhorar a qualidade da educação nacional. Mas o Brasil tem tudo aquilo que precisa. E esse desiderato será alcançado quando as escolas deixarem de estar cativas de um modelo educacional obsoleto e de uma gestão burocratizada, na qual os critérios de natureza administrativa se sobrepõem a critérios de natureza pedagógica. Fiz parte de um grupo de trabalho junto ao Ministério da Educação e sei de projetos públicos de elevadíssima qualidade. Sei que está a nascer no Brasil o futuro da educação. O que acontece hoje é que, nas escolas, os projetos que estão escritos não são concretizados na prática. Há uma conivência do poder público e das secretarias em relação a isso. E eu temo que essa situação de impunidade se mantenha. Temo o obsceno silêncio dos pedagogos. Talvez devamos apelar ao bom senso dos titulares do poder público e da Universidade, pedir-lhes que estejam atentos a excelentes práticas que muitos educadores vêm produzindo.

Qual é o seu desejo?
Continuarei a minha busca dos “caminhos”, consciente das dificuldades, mas também das possibilidades. Intuo que as escolas carecem de espaços de convivência reflexiva. Que precisamos compreender que pessoas são aquelas com quem partilhamos os dias, quais são as suas necessidades (educativas e outras), cuidar da pessoa do professor, para que se veja na dignidade de pessoa humana e veja outros educadores como pessoas.

Quais seriam as novas construções sociais de aprendizagem?
São muitas e diversas. Aquela que estou estudando podemos chamar de “comunidade de aprendizagem”. Porém, que não se confunda com aquelas oriundas de países anglo-saxônicos, ou da Espanha. As comunidades de aprendizagem, nas quais desenvolvo pesquisa, são mesmo novas construções sociais de aprendizagem, dado que, de modo gradual e sem fazer de professores e alunos cobaias, substituem a velha construção social de aprendizagem engendrada na revolução industrial.

O que acha da formação dos professores brasileiros?
Não duvido de que as universidades brasileiras disponham de excelentes formadores, mas praticam uma formação reprodutora de um modelo escolar e social do século XIX. A formação de professores continua imersa em equívocos. Ainda há quem creia que a teoria pode preceder a prática e encha a cabeça do formando de tralha cognitiva, ingenuamente acreditando que ele irá “aplicá-la” na sala de aula. Ainda há formadores que adestram formandos no planejamento de aula, quando deveriam prescindir dessa inútil herança de práticas sociais do século XIX. Ainda há quem considere o formando como objeto de formação, quando deveria ser tomado como sujeito em transformação, no contexto de uma equipe.

Como vê o papel da leitura na escola?
Vejo-o como essencial. E a formação de leitores depende de uma boa alfabetização linguística. O que, infelizmente, não acontece no Brasil…

Educar é …
São muitas as definições do conceito. Prefiro aquela que deriva do étimo latino “educare”: extrair, tirar de dentro… Reconhecer talentos, o potencial de cada ser humano. É partir do princípio de que todos podem aprender, desde que criadas as condições para tal. É contemplar a multidimensionalidade da pessoa e propiciar-lhe uma formação integral, que não seja apenas do domínio cognitivo, mas também do emocional, do afetivo, do ético, do estético…

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