Um olhar independente para o mercado editorial

Por Ivani Cardoso

(c) Mariana Vilhena

Raquel Menezes, editora da Oficina Raquel e da Oca Editorial, em Portugal, é presidente da Libre, associação de editores independentes, e sua luta é pela democratização do acesso ao livro, pela Lei do Preço Fixo e pela bibliodiversidade. “Leia livros não faça guerra” tem sido seu mantra nas redes sociais. Doutora em Literatura Portuguesa pela UFRJ, onde também cursou a Graduação e Mestrado, Raquel defende ações efetivas para atrair os 44% de brasileiros que não leem.

Leia a entrevista na íntegra:

Há quanto tempo está envolvida com o mercado editorial?

Minha editora existe desde 2006, quando foi criada pelo Ricardo Pinto de Souza, hoje professor de Teoria Literária da UFRJ. No entanto, só a partir de 2011 assumi como editora e administradora. Antes de trabalhar na minha própria editora, como boa parte dos estudantes de Letras, fiz muito freela: revisão, cotejo, organizações de livros, etc. Mas a percepção de que queria ser editora, foi quando criei com um amigo uma revista digital, a pequena morte.com. Ali que me dei conta de que gostava de pensar projetos e de algum modo ter algum poder de decisão nos que as pessoas podem chegar a ler.

Você foi uma criança leitora?

Eu fui uma criança com quase nenhum livro em casa. Não tínhamos biblioteca em casa. Para minha mãe eu deveria ler apenas os livros da escola e a Bíblia. Como cresci na periferia, não existia livraria na minha cidade. Meus primeiros livros que não escolares foram emprestados da biblioteca da escola. Depois, já na adolescência, da Biblioteca do Sesc, onde passava toda quarta-feira depois do cursinho de inglês. Ganhei meu primeiro livro de uma tia, quando eu tinha 9 anos…. Eram umas máximas do Barão de Itararé. Essa tia ficou tão contente com a minha reação ao receber livros que me deu mais e mais. Essa tia, em seguida um outro tio que me deu a coleção de clássicos do Jornal O Globo e as Bibliotecas foram meus grandes incentivos.

Como você avalia a atuação da Libre em 2018?

2018 tem sido um ano dificílimo para o setor do livro. É sabido que vivemos uma crise na indústria do livro – como pode ser observado nos jornais nos últimos dias por causa da Cultura e da Saraiva. Mas as dificuldades não são de hoje: o faturamento da indústria caiu 20% entre 2014 e 2017. Enquanto respondo esta entrevista, está repercutindo negativamente no mercado editorial a coluna do Élio Gaspari, na Folha de S. Paulo, contra a regulamentação do preço do livro no Brasil. Entre as tantas inverdades que ele fala no texto, que parece, sinceramente, encomendado, tamanho o número de argumentos levianos, a mais grave é a de que nós editores queremos prejudicar o leitor em nome de um protecionismo de mercado. Ele vai além e afirma que essa articulação é recente e fruto da crise da Cultura e da Saraiva.

Como você encara essa afirmação?

Como um equívoco gigante! (Com a devida licença para o uso de um eufemismo). Há tempos a Libre discute a Lei do Preço Fixo no Brasil – mais precisamente desde sua criação – inspirada no que acontece na França e em outros países que se valem desta Lei para regular o mercado. A Libre sempre foi a entidade do livro que se posicionava com clareza em relação ao tema.

Quais são os outros desafios?

Ainda no que diz respeito a marcos regulatórios a favor do livro, junto à Vereadora Veronica Costa, estamos lutando pela extensão da isenção de IPTU às livrarias da cidade do Rio de Janeiro. As editoras já possuem este benefício, a indicação legislativa propõe que o benefício chegue às livrarias também. Essa medida pode aumentar o número de livrarias na cidade do Rio, o que significa mais empregos. Nossa luta junto às livrarias é por entender que sem diversidade de livrarias não haverá bibliodiversidade, nossa principal bandeira.

Quais os principais projetos para o próximo ano?

Seguir na luta pela Bibliodiversidade através de políticas públicas, porque entendemos que formação de leitura é uma responsabilidade do Estado Políticas públicas como a referida proposta e a sanção da Lei Castilho – que precisa agora ser devidamente implementada -, são marcos regulatórios indispensáveis para formar um país de leitores. Não sei o que esperar desse novo governo, mas em nossos planos está um reforço da marca Primavera Literária, nosso principal evento, trabalhando encontros sobre livros, leitura e literatura o ano todo, em livrarias, universidades e demais pontos de leitura. A ideia é que a Primavera Literária espalhada ao longo do ano democratize o pensamento sobre democracia.

Você lançou uma editora em Portugal. Por que?

A Oficina Raquel nasceu como uma editora artesanal que publicava só poesia. Apesar de poesia ainda estar em nosso catálogo, desde 2011, quando assumi, desistimos dos livros artesanais para ter mais capilaridade no mercado. Impossível chegar a mais leitores com tiragens de 100 exemplares. Nosso foco no Brasil, por causa da minha área de formação no Doutorado, é Literatura Portuguesa, divulgamos, portanto, vozes portuguesas aqui no Brasil. Já em Portugal, a proposta é levar autores brasileiros. Ou seja, construir uma ponte cultural entre esses países.

Você acha que agora sai a Lei do Preço Fixo?

A Libre sempre teve convicção da importância desta lei para o mercado. Eu também sou uma entusiasta da Lei. Participei dos fóruns sobre o tema quando a Senadora Fátima Bezerra apresentou a Lei e com as demais entidades participei do GT proposto pelo Ministério da Cultura para pensar o tema como uma medida provisória. É notório o resultado exitoso dos países que têm a Lei. Infelizmente, a luta pela lei do preço único nunca foi da Saraiva, da Cultura ou de qualquer outra grande rede de livrarias, e hoje, pagam o preço por isso. As editoras (principalmente as grandes) também têm sofrido as consequências pelos tantos anos de resistência ao assunto.

O que mostra a experiência internacional?

Em vigor na França desde 1981, foi considerada por diversas instâncias da administração e justiça europeias como uma política cultural que se sobrepõe à sua particularidade econômica. Como aqui no Brasil o poder público não vê isso e a opinião pública também não enxerga? Vemos a calamidade do nosso mercado atual – fechamentos de pequenas editoras, livrarias e os dois grandes players em risco de falência – porque não houve a aprovação da lei. Espero que o que vemos hoje nos conduza a implementação desta lei, caso contrário nossa doença crônica nos levará a morte. Infelizmente, apesar de ser uma articulação do Minc o GT, a Casa Civil não tem visto com bons olhos.

Como a crise politica afetou o mercado editorial?

Eu acho que foi muito bonito ver as pessoas que votaram a favor de um pensamento democrático, o fizeram com um livro na mão. “Leia livros não faça guerra” tem sido meu mantra nas redes sociais. Gostaria mesmo que se espalhasse pelo Brasil essa ideia, para, assim, ao invés de armas termos livros nas mãos das crianças. Só com políticas públicas para a educação e a cultura aprenderemos a votar melhor e a cobrar do poder público iniciativas em prol do livro, da cultura e das demais áreas bases.

Pode explicar o conceito de Bibliodiversidade?

Bibliodiversidade é um conceito que nasce nos nossos vizinhos da América Latina. Pensando no conceito de biodiversidade da biologia, conseguimos entender do que se trata. Quando visitamos um aquário não desejamos ver só tainhas. Queremos ver diversidade de espécies marítimas, certo? Tubarões, arraias, peixinhos coloridos, peixe-espado e etc. Quando falamos em bibliodiversidade queremos que nas livrarias não estejam disponíveis apenas best-sellers, mas sim autores nacionais, variedades de temas, formato e gêneros como poesia, clássicos, livros de referência. Bibliodiversidade, mais que apenas um conceito do mercado independente, é um direito do leitor. Bibliodiversidade é indispensável para que tenhamos equidade de mercado, é por isso que nossa entidade defende essa bandeira desde a fundação.

Quais os maiores desafios do mercado editorial? 

Nossa maior dificuldade é se perceber como uma cadeia. É entender que todos os atores são importantes e indispensáveis. A fraqueza de um dos elos gera, indiscriminadamente, problemas para a cadeia. É o que vemos hoje, infelizmente, com a quase falência destes grandes players. Mas antes deles muitas pequenas e médias livrarias encerraram suas atividades. Contraditoriamente, apesar de esta ser a indústria que quando está aquecida reflete em melhores condições sociais e culturais do país, não conseguimos nos articular em favor de nós mesmos. Uma política transparente de consignação seria um excelente começo, que, num futuro não muito distante poderia resultar em um enfraquecimento desta prática, que dia após dia enfraquece e adoece nosso mercado.

Qual o panorama para as editoras independentes para 2019?

Com as crises das grandes redes, sendo otimista, espero que livrarias independentes consigam surgir. Caso isso ocorra, será bom para as editoras independentes, que já sabem conversar mais com pequenas e médias livrarias, que investem em livreiros no chão de loja – como é o caso do Leonardo Marona, na Travessa de Botafogo, que além de vender livros tem sido um agitador cultura na cidade. É a livraria cumprindo seu papel de ponto de encontro e de cultura. Já as livrarias que deveriam ter como letreiro jogueteria ou papelaria, nunca vão investir em livreiros. E estamos vendo o resultado disso com as notícias dos últimos dias que têm tirado o sono de todo o mercado. O aprendizado que as independentes podem deixar para o resto do mercado é o de que embora, claro, livro seja um produto, não deve ser comercializado como sabonete ou banana. Há um valor simbólico no livro que os editores independentes sabem bem e podem em 2019 ensinar ao restante do mercado.
www.oficinaraquel.com

Stan Lee, criador de super-heróis da Marvel, morre aos 95 anos
Globo.com
12/09/2018

Stan Lee, roteirista e editor da Marvel Comics, morreu aos 95 anos. A filha de Lee confirmou a morte nesta segunda-feira (12). Ele passou mal em sua casa em Los Angeles, nos EUA, e foi levado ao hospital, onde morreu. Ele sofria de pneumonia e de problemas nos olhos. O quadrinista participou da criação de super-heróis icônicos como Homem-Aranha, Thor, Hulk, X-Men, Pantera Negra, Demolidor, Homem de Ferro e Quarteto Fantástico.
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Editora quer revolucionar mercado com lançamento de livros em miniatura
O Estado de S.Paulo/The New York Times
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09/11/2018

Como objeto físico e façanha da tecnologia, o livro impresso dificilmente pode ser aperfeiçoado. Sua forma praticamente não evoluiu desde que surgiu o manuscrito como uma alternativa atraente aos rolos de pergaminhos, há aproximadamente 2 mil anos. Agora, obras com o tamanho de um celular e podem mudar a maneira como as pessoas se relacionam com a leitura. Por isso, quando Julie Strauss-Gabel, presidente e editora da Dutton Books for Young Readers, descobriu os “dwarsliggers” – livrinhos minúsculos, horizontais, tamanho de bolso, que se tornaram populares na Holanda -, eles lhe pareceram uma revelação.
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Youtubers e influenciadores digitais podem virar profissões regulamentadas
Olhar Digital
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08/11/2018

É inegável que as redes sociais e o avanço tecnológico das últimas décadas criaram profissões que não existiam antes. Agora, um deputado brasileiro propôs duas leis que visam regulamentar essas carreiras do novo milênio: ele quer ajudar a vida de youtubers e de influenciadores digitais. Os dois projetos foram apresentados pelo deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) no dia 31 de outubro e ainda estão iniciando a tramitação na Câmara – ainda falta um longo caminho até que eles sejam votados e aprovados. O curioso é que são dois projetos que diferenciam as profissões. Ou seja, quem trabalha com vídeos no YouTube e quem usa o Instagram são, na visão do deputado, profissionais com necessidades diferentes. É bom ressaltar o que o deputado Eduardo da Fonte considera um “youtuber” e um “influenciador digital”. Do PL 10938/2018, sobre a profissão de youtuber:
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Carta de suicídio de Baudelaire para a amante é vendida por valor três vezes maior do que o estimado em leilão
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05/11/2018

Uma carta “extraordinária”, na qual o poeta francês do século XIX Charles Baudelaire conta à amante que ele planejava se matar, foi vendida em leilão por três vezes mais do que o previsto. Baudelaire, autor da coletânea de poesias Les Fleurs du Mal, tinha 24 anos quando escreveu a carta, em 30 de junho de 1845. Endividado e inseguro quanto à sua capacidade literária, ele escreveu à amante, Jeanne Duval, que inspirou grande parte de sua poesia: “no momento em que receber esta carta, eu estarei morto”.
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A crise que rouba livros
IstoÉ Dinheiro
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09/11/2018

Atoladas em dívidas, a Livraria Cultura e a Saraiva pressionam o mercado de livros. O futuro das editoras, que dependem das duas grandes redes, é incerto. Segundo Luís Antonio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL, para enfrentar essa crise, uma das ideias são feiras itinerantes de livros, que precisam receber mais apoio do governo. A CBL também organiza a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que obteve um público visitante de 663 mil pessoas em agosto. Os números da Bienal crescem a cada edição, mostrando que ainda estamos longe de ver os livros se tornarem obsoletos, como num romance distópico do americano Ray Bradbury.
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Crime organizado: a pirataria de livros didáticos na Rússia
Publishing Perspectives
Eugene Gerden
13/11/2018

Um relatório de Vera Chereneva no Rossiyskaya Gazeta indica que a polícia de São Petersburgo apreendeu mais de 160.000 livros falsificados recentemente. Os volumes aparentemente foram impressos por uma gráfica legítima, que supostamente atendia um pedido legal um editor.
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