O cordel é um dos pilares da nossa literatura

Por Ivani Cardoso

MarcoHaurelioA Escola Municipal Doutor José Novais tem a maior nota entre as escolas municipais e estaduais de João Pessoa e está além da média das escolas privadas da capital paraibana (7,3 no Ideb 2015, quando a meta era 6,0). Entre suas ferramentas na sala de aula está o uso da literatura regional, típica do Nordeste, para contar a historia de autores famosos. Com essa e outras experiências na educação, o cordel vem ganhando força e tem muitas influências e confluências, passando pelas tradições populares do Brasil às sagas mitológicas de várias origens. O escritor, poeta popular, editor, pesquisador e folclorista Marco Haurélio é apaixonado pelo gênero e diz que um bom cordel não é apenas um texto bem escrito, mas deve ser calçado também por subtextos e informações, além de estar conectado ao inconsciente coletivo. Ele tem vários títulos editados, como Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo; História da Moura Torta e Os Três Conselhos Sagrados (Luzeiro). É autor, também, dos livros infantis A Lenda do Saci-Pererê e Traquinagens de João Grilo (Paulus); O Príncipe que Via defeito em Tudo (Acatu). No campo da pesquisa em poesia popular, escreveu Breve História da Literatura de Cordel (Ed. Claridade), que integra a coleção Saber de Tudo, e Literatura de Cordel – do sertão à sala de aula (Paulus). Faz palestras e realiza oficinas sobre Cordel e Folclore em vários estados brasileiros e foi consultor da telenovela Velho Chico (Rede Globo). Quando o tema é educação, ele ressalta que, nas escolas, o grande erro é trabalhar o folclore apenas no mês de agosto. Ou imaginar que o folclore envolva apenas crenças e costumes ligados ao universo rural. “Folclore não é algo exterior ao homem, portanto. É a vida em sua plenitude”, afirma.
Seu blog: marcohaurelio.blogspot.com.br

Confira a íntegra da entrevista:

De onde surgiu a paixão pelo cordel?
Vem desde a minha infância, na Ponta da Serra, sertão da Bahia, onde nasci. A casa da minha avó, Luzia Josefina, ficava ao lado da casa de meu pai. E, lá, numa gaveta de um velho armário, ela guardava centenas de folhetos de cordel, incluindo vários clássicos. Ela também sabia de cor muitos romances velhos (romances ibéricos), contos populares e ABCs (composições poéticas cujas estrofes sempre começam com uma letra do alfabeto, em sequência). Aos sete anos, eu já sabia de cor alguns cordéis, a exemplo da História de Juvenal e o Dragão, de Leandro Gomes de Barros.

De onde vem a inspiração?
São muitas as influências e confluências. Das tradições populares do Brasil às sagas mitológicas de variada origem. Tanto que o meu novo projeto, na verdade um romance de cordel escrito ao longo de mais de 20 anos, chama-se O Cavaleiro de Prata e traz referências das mitologias nórdica e céltica. Também sou pesquisador das tradições populares, notadamente dos contos tradicionais, que se vinculam ao mito e ao rito, impelindo à pesquisa para efeito de comparação. Um bom cordel, hoje, não é apenas um texto bem escrito, mas deve ser calçado também por subtextos e informações, além de estar conectado ao inconsciente coletivo.

Qual a importância do cordel para a literatura?
Cordel é literatura, mas, como as pessoas gostam de segmentar e, também, de marginalizar, durante muito tempo foi reduzido à condição de fonte inspiradora para artistas de outras searas. Seu valor, para as elites culturais, se resumia a esta função subalterna. Hoje, apesar de ainda prevalecer uma visão elitista, a nova geração tem conquistado muitos espaços. Alguns poetas e estudiosos da poesia brasileira, a exemplo de Alexei Bueno, consideram muitos autores de cordel mais talentosos que os pretensos poetas cultos. O cordel é um dos pilares de nossa literatura e, sem ele, o Cinema Novo não existiria. O teatro popular de Ariano Suassuna deve a ele sua existência e obras seminais como Macunaíma, de Mário de Andrade, sem a interface com a poesia popular, perderia muito de sua graça.

É um gênero reconhecido em eventos e feiras literárias?
Sim. Eu, por exemplo, tenho participado de muitos eventos, e a minha condição de autor e pesquisador do cordel é a principal razão para os convites que recebo. Em várias feiras e bienais, como a do Ceará, tem espaço fixo e programação própria. Este ano, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a Câmara Cearense do Livro, presidida por Lucinda Marques, contou com um dos espaços mais atraentes de toda a feira. Ainda não é o ideal, mas um grande passo foi dado.

Como o cordel deve ser utilizado na escola? Quais as vantagens do cordel na sala de aula?
Como qualquer gênero poético de estrutura fixa. Os assuntos do cordel são os mais variados e sua métrica em que predomina a redondilha maior (o verso de sete sílabas) é a mesma das cantigas de roda e dos acalantos. É preciso, no entanto, estar atento ao que é apresentado às escolas. Cordéis normativos, com finalidades pretensamente didáticas, não são os mais aconselhados, embora, em alguns casos, sejam necessários. Os poemas narrativos são sempre mais atrativos para os que não têm ainda contato com o gênero.

Folclore e sala de aula coexistem com harmonia na sua opinião?
A depender da abordagem, o folclore, conceito que envolve toda uma gama de manifestações populares e de constantes psicológicas, pode ser muito atraente, sim, mas é preciso atenção redobrada para não reproduzir estereótipos ou uma visão exótica de algo que faz parte de nosso cotidiano. O erro está em trabalhar o folclore apenas no mês de agosto. Ou imaginar que o folclore abarque apenas crenças e costumes ligados ao universo rural. Quando fazemos um sinal, como o do polegar apontando para cima ou baixo, estamos reproduzindo, instintivamente, um gesto que, nas arenas romanas, por indicava quem deveria viver ou morrer. Hoje, tem um significado ligeiramente diferente, mas, no fundo, expressa o mesmo sentimento, pois o rito antigo está implícito no gesto. Folclore não é algo exterior ao homem, portanto. É a vida em sua plenitude.

Nosso folclore é rico de temas e personagens?
Sim. E boa parte destes personagens míticos aparece numa obra essencial do mestre Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros. Creio que seja o Saci o personagem mais conhecido hoje, graças, principalmente, à obra de Monteiro Lobato, que alcançou grande visibilidade em adaptações televisivas. É preciso, porém, entender que mesmo o Saci é representado de várias formas e carrega em seu DNA elementos de diferentes culturas, do gorro mágico do duende celta ao cachimbo africano. Mas, em sua origem, o personagem pertence à mitologia indígena e estava associado à Lua.

Como foi seu trabalho em Velho Chico?
Fui consultor no campo do folclore e do cordel. Por isso, também produzi poemas que eram cantados pela dupla de poetas populares da história, Egídio e Avelino, interpretados por Maciel Melo e Xangai. A minha missão, além de escrever os cordéis, era apresentar hábitos, festas, costumes, lendas e crendices que margeiam o rio São Francisco. Numa viagem que fizemos, em maio do ano passado, da foz do rio, entre Sergipe e Alagoas, a Bom Jesus da Lapa, Bahia, assistimos, na Vila Boa Esperança, em Serra do Ramalho, a uma roda de São Gonçalo, realizada com a presença de arcos manuseados pelos pares, que foi reproduzida, com esmero, em dois momentos cruciais da história. Os autores, Edmara Barbosa e Bruno Luperi, ainda incorporaram à história, por minha sugestão, o hábito de muitos idosos, ainda hoje, tecerem a própria mortalha, comprovando que a morte é aceita com naturalidade. O costume, estranho para quem não é do sertão, aparece ligado à figura emblemática da matriarca dos de Sá Ribeiro, Encarnação (a estupenda Selma Egrei), personagem que parece saída de um romance de Gabriel García Márquez, mas representa a arcaica aristocracia rural do Nordeste, que agoniza, se arrasta, mas ainda está viva.

Que outros pontos a novela destacou?
Também se fizeram presentes na trama as pegas de boi na Caatinga, rememorando a civilização do couro, e lembrando que o rio São Francisco, protagonista da história, por seu papel importante na colonização do país, já se chamou Rio dos Currais. O costume antigo de se sair em demanda do gado bravio, criado solto nos tabuleiros e reunido pelos intrépidos vaqueiros, deu origem à vaquejada moderna. Na novela, foi mostrada a pega de boi no “cipoá” (o carrasco), termo que aparece numa obra seminal do cordel, a História do Valente Sertanejo Zé Garcia, de João Melchíades Ferreira, que serviu de inspiração aos autores.

Quem são suas influências no cordel?
São muitos, mas vou citar alguns. No cordel, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Minelvino Francisco Silva, Eneias Tavares dos Santos, Delarme Monteiro, Severino Borges Silva, Antônio Teodoro dos Santos, Manoel D’Almeida Filho, Manoel Camilo dos Santos etc. Na atualidade, me identifico com muitos autores, a exemplo de Rouxinol do Rinaré, Nezite Alencar, Klévisson Viana, Geraldo Amâncio, Arievaldo Viana, Eduardo Macedo, Suriel Ribeiro, Juracy Siqueira, Bule-Bule, Josenir Lacerda, Pedro Monteiro, Aldy Carvalho e muitos outros.

É um gênero mais distante de Sul e Sudeste, como fazer para aproximar?
Eu diria que não é tão distante assim, haja vista que o nordestino é, por natureza e necessidade, um migrante. E para onde ele foi, levou suas tradições. Daí o cordel estar presente, há décadas, em São Paulo, no Rio de Janeiro e no norte do país. No Rio Grande do Sul, por exemplo, nasceu um grande cordelista, um virtuose: Suriel Moisés Ribeiro, que, além de gostar da cultura nordestina, é admirador da obra de Ariano Suassuna. E, por dialogar com as poéticas tradicionais, por exemplo, com os pasquins e modas de viola do interior de São Paulo e as trovas gaúchas, o cordel acaba caindo no gosto das pessoas que apreciam os poemas narrativos, cantados ou não. Afinal, os campos do imaginário não aceitam cercas.

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