Crowdfunding, um jeito colaborativo de publicar

Por Ivani Cardoso

Financiamento coletivo de publicações não é voluntariado, não é vaquinha e nem coisa do outro mundo. É um sistema de pré-vendas para facilitar o contato direto com os leitores, como explica a jornalista e designer mineira Raíssa Pena, diretora de publicações da plataforma Catarse. Criado há 7 anos, o Catarse já conseguiu financiar mais de 1.200 publicações e arrecadou cerca de R$ 16 milhões. Neste ano a empresa espera crescer em torno de 50%, e a partir de março abre a modalidade assinaturas, com a possibilidade de o realizador/autor receber parcelas mensais.

Leia a íntegra da entrevista:

Como começou sua ligação com o Catarse?

Em 2016 eu lancei como coautora um livro de fotografias financiado pelo Catarse, “Casa e Chão”, sobre arquitetura de Belo Horizonte. Eu uma amiga, Paola Carvalho, temos obsessão por ladrilhos antigos e fizemos uma coleção virtual de ladrilhos de todo o mundo no Instagram. Queríamos documentar uma coleção de ladrilhos antigos em casarões de Belo Horizonte que estavam se perdendo na memória da Cidade. Como não tínhamos reserva pessoal para fazer esse livro com 120 páginas, resolvemos fazer por financiamento coletivo. Montamos a campanha e deu tudo certo, conseguimos lançar o livro, foi um sucesso. Pedimos R$ 42 mil e conseguimos arrecadar R$ 52 mil em dois meses.

Foi só por redes sociais?

Sim, basicamente Instagram e Facebook, além de nossa assessoria de imprensa mesmo. Nós já tínhamos uma base modesta de 5 mil fãs em uma comunidade muito engajada no Facebook de pessoas que incentivavam para que fizéssemos um livro. Apesar do medo, deu tudo certo. Conseguir uma boa comunicação com nossos seguidores foi uma das razões do sucesso.

Vocês já conheciam outros projetos como esse?

Muito pouco, alguns amigos músicos já tinham feito campanha de crowdfunding. Achei tudo muito simples, nós fizemos uma pesquisa e uma planilha de Excell comparando as plataformas para escolher a melhor para o nosso projeto. No site do Catarse, como nos outros, estão os termos de uso do acordo quando é feito o cadastro na plataforma.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar no Catarse?

Na época da campanha, recebemos muita assistência e orientação da plataforma e eu fiquei em contato direto com dois funcionários. Como o setor de publicações do Catarse cresceu muito, o sócio fundador do Catarse, o Diego Reeberg, resolveu contratar um funcionário para cuidar exclusivamente dessa área. O fato de ser jornalista ajudou para que eu fosse contratada, a força desse projeto de financiamento editorial é saber se comunicar bem com o público do seu livro. É essencial encontrar o tom certo para cada publicação.

Pode divulgar alguns números da plataforma?

O segmento de Publicações ganhou bastante força no Catarse de 2016 para cá. Só as categorias de Literatura, Quadrinhos e Fotografia (que concentram a maior parte das campanhas) movimentaram R$4,05 milhões em 2016, um crescimento de mais de 60% em relação a 2015 (R$2,53 milhões). Os números do financiamento coletivo são grandes no Brasil e no Exterior, principalmente nos Estados Unidos, onde as pessoas têm muita familiaridade com essas campanhas.

E em 2017?

Somando a essas três categorias, tivemos excelentes campanhas nas categorias de Arquitetura e Urbanismo e de Artes, com uma movimentação de R$ 5,6 milhões. Para, 2018, esperamos um crescimento em torno de 50%. Até agora, 469.954 pessoas já apoiaram pelo menos 1 projeto no Catarse, 75 milhões foram direcionados a projetos publicados (mais 16 milhões só para projetos de publicações) e 6.598 projetos foram financiados em nossa plataforma.

Qual é o recordista brasileiro de financiamento coletivo?

O recorde brasileiro de financiamento coletivo de uma publicação é o livro “Kabbalah Hermética”, 4º projeto do Marcelo Del Debbio no Catarse, que arrecadou R$347.658 com o apoio de 1086 pessoas.

E a relação com as editoras? São concorrentes?

Não, pelo contrário, inclusive algumas editoras pequenas e médias estão vindo para o Catarse fazer livros e usar como estratégia de pré-venda. A vantagem para uma editora aderir ao

crowdfunding é enorme. Em primeiro lugar, diminui o risco da operação, só vai imprimir o título se ele tiver demanda e se as pessoas se engajarem com ele.

Quais as outras vantagens?

Se um livro tem um capricho gráfico que inviabilizaria uma impressão em uma editora gigantesca, ele deixaria de existir só por não dar lucro? O financiamento pode viabilizar casos como esse. O sistema também serve como termômetro da aceitação dos livros de acordo com a adesão das pessoas. Outra vantagem é a oportunidade para movimentar o catálogo da editora. Por exemplo: a editora lança um livro e nas recompensas previstas na plataforma pode incluir livros do seu catálogo.

Como funcionam as recompensas?

Quando a campanha é criada, há várias opções, de acordo com o valor da contribuição. Quem contribui pode levar um livro e o frete, um pôster, outros livros etc.

As editoras ficam de olho nos projetos?

Sim, tenho o exemplo do livro “Coisa de menina”, de Pri Ferrari. Ela fez uma campanha, mas quando já estava quase chegando ao total previsto foi abordada pela Cia das Letras. Ela avisou para os apoiadores e eles entenderam, deram todo apoio e ficaram felizes por ela. Todo mundo recebeu o livro da mesma forma. Há vários outros casos de autores que são contatados pelas editoras. Acho uma atitude inteligente das editoras, afinal o desempenho de uma campanha é uma indicação de aceitação para um título.

Pode citar um caso de campanha de editora?

Tenho um bom exemplo que é a Editora Romano Guerra, de Arquitetura, com quase 20 anos de operações. Eles fizeram o Catarse pela primeira vez o ano passado para reeditar dois livros de Arquitetura fora de catálogo desde os anos 70 (“Dicionário de Arquitetura” e “Arquitetura Moderna Paulistana”). São livros esgotados, mas muito icônicos e importantes no estudo da Arquitetura. Com a demanda de professores e profissionais, conseguiram R$ 240 mil para editar os fac-símiles desses livros. Envolveram os autores na campanha e movimentaram a rede da editora para angariar novos públicos.

Quem cuida da divulgação em uma campanha?

Esse trabalho é dividido. O realizador tem uma responsabilidade maior, mas o Catarse faz também a divulgação nos canais próprios, a newsletter e as redes sociais. O editor e o autor são tão fundamentais como no mercado tradicional. Se o autor parar de divulgar, complica. O importante é modelar a campanha para seu público, não importa que seja de 20 pessoas ou de 20 mil. Há grupos de pessoas com demandas muito específicas, que as grandes editoras não conseguem atender.

Os jovens estão aderindo?

Sim, há muitos jovens escritores. É uma ótima estratégia para quem vai lançar o primeiro livro ou para editoras que estão começando e querem testar os títulos. Os instapoets (poetas do Instagram) estão usando bastante para divulgar seus trabalhos, além de pessoas com muito sucesso e seguidores nas redes sociais que resolvem publicar livros. Um exemplo é o Bruno Fontes, que tinha uma base de fãs sedenta nas redes sociais, escreveu o primeiro livro e foi um sucesso a campanha.

A tendência é a expansão?

Certamente, há vários tipos de campanhas, inclusive para determinadas causas. No Brasil, as pessoas ainda ligam muito o financiamento com a ideia de vaquinha, mas nem sempre é isso. No caso de publicações é o contrário, as pessoas não estão ali doando dinheiro e sendo voluntárias. Elas estão participando de uma pré-venda, trocando dinheiro pelo livro dentro de um sistema em que se relacionam muito mais com o autor e podem fazer parte do processo. Cada realizador tem sua própria distribuição. Tem gente que doa grande parte da tiragem para instituições e bibliotecas comunitárias.

E HQs, entram no Catarse?

Os quadrinhos são um fenômeno. Temos a área de publicações, que eu coordeno, e uma área específica para HQs e jogos, o universo Geek, uma comunidade muito engajada. As pré-vendas deles batem a meta às vezes em 24 horas, é assustador. Fizemos em 2017 a campanha do Carlos Ruas, que pediu R$ 50 mil e arrecadou R$ 284 mil. Foi apoiado por 3193 pessoas, o triplo do que conseguia em pré-venda normal de e-commerce ou livraria.

Quais são as modalidades de campanha?

Na modalidade Tudo ou nada, o realizador só leva o dinheiro se arrecadar a meta determinada. Se não atingir a meta, o Catarse devolve toda o dinheiro arrecadado para os doadores, sem cobrar nenhum tipo de taxa. Eu brinco dizendo que ou todo mundo ganha ou todo mundo perde. Na Flex, se pedir R$ 40 mil e arrecadar R$ 10 mil, o realizador leva, mas precisa entregar o que prometeu. Se 50 pessoas apoiaram, terá que entregar os 50 livros. Essa modalidade funciona bem para quando uma editora já tem um total separado para um título e quer complementar.

E o que vem por aí?

Na nova modalidade Assinaturas, a partir de março haverá uma forma de apoio recorrente, ou seja, em vez de receber o total no final da campanha, o realizador recebe apoios mensais. Estamos testando essa nova opção com alguns realizadores. É muito válido para quem produz conteúdo e precisa uma renda fixa por mês.

O Catarse não faz o livro?

Não, o autor é que vai correr atrás do projeto gráfico, da capa, da impressão. Fazemos a intermediação entre o autor e os apoiadores. Durante a campanha, nós sempre recomendamos que o autor interaja com seus apoiadores dando informações sobre o livro, respondendo perguntas. Os apoiadores adoram receber notícias e tudo isso é feito dentro da plataforma, no canal de comunicação. O autor centraliza as informações e contatos.

Como funciona o controle do dinheiro arrecadado?

O Catarse recebe o dinheiro e no final da campanha entregamos o total para o realizador. Toda campanha tem um prazo para terminar. Nós cobramos uma taxa de 13% pelo trabalho, que inclui os 4% de meio de pagamento (boleto, cartão de crédito).  Geralmente o cartão de crédito é o meio preferido, mas pessoas de mais idade preferem o boleto.

Há uma contribuição mínima?

O mínimo é R$ 10,00 e não tem o máximo, pode ter cotas empresariais de acordo com o realizador, inclusive colocando logo das empresas apoiadoras no livro.

Para saber mais:
https://www.catarse.me/kabbalah 

Plataformas na América do Sul:
https://www.idea.me (Argentina)

 

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Cerca de 80 livrarias independentes do Reino Unido criaram um fórum digital para discutir a possibilidade da criação de um “coletivo”. A ideia é negociar como um grupo para obter descontos melhores, edições exclusivas e mais eventos com autores, entre outras vantagens.
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