A Feira de Frankfurt se reinventa sempre

Por Ricardo Costa

Há 12 anos na presidência da Feira do Livro de Frankfurt, Juergen Boos está atento a todas as mudanças trazidas pela tecnologia e garante que a força está no mercado tradicional do livro, destacando a importância de cobrir todos os tipos de indústria criativa. Para os brasileiros que vão participar da Feira, recomenda: “Saiba o que você quer. Venha à Feira com uma ideia clara do que espera dela. Faça uma lista das suas prioridades e converse com as pessoas antes de viajar para saber o que está acontecendo. Priorize, foque, não se distraia”.

Confira a íntegra da entrevista:

Qual é a história da carreira do presidente da Feira do Livro de Frankfurt?
Quando terminei o Ensino Médio, eu não sabia o que queria fazer. A única coisa em que eu estava interessado era ler. É clichê, eu sei, mas foi assim. Então fui conversar com meu tio que tinha uma livraria — uma loja familiar com uns 100 anos naquela época — e ele me disse que era um bom negócio, mas que eu deveria ser um editor, não um livreiro! Fiz um estágio em uma editora e entrei na universidade. Meu primeiro emprego depois da faculdade foi administrar uma pequena cadeia de livrarias; eu não segui o conselho do meu avô logo de início. Mas, depois disso, fui trabalhar no mercado de livros Trade e entrei na área internacional quando a editora Springer montou seu departamento internacional. Mais tarde trabalhei na operação alemã da Wiley e depois disso fui convidado a assumir como presidente da Feira, porque eu tinha esse background internacional e uma rede de contatos dos meus 14 ou 15 anos trabalhando nessas duas grandes editoras de CTP. Comecei na Feira do Livro de Frankfurt em abril de 2005.

Quais as mudanças mais notáveis nestes 12 anos de Feira?
O interessante sobre a Feira é que ela precisa se reinventar o tempo todo, e nunca fica entediante. Nos últimos anos vimos muitas mudanças acontecerem. Primeiro tivemos as discussões sobre nossa indústria se tornar digital, e acompanhamos as alterações no mundo editorial. O que estamos tentando fazer agora é transformar a Feira de um negócio focado no Copyright para um market place de negócios relacionados à propriedade intelectual, o que significa que estamos buscando alcançar todos os players de mídia interessados em conteúdo, que precisam de conteúdo.

Iniciamos essa relação há 10 anos com a indústria de filmes, depois desenvolvemos o Storydrive, que traz discussões sobre esse tema, e no ano passado lançamos um novo formato, o The Arts+. Percebemos que precisamos cobrir todos os tipos de indústria criativa, porque todo trabalho desta indústria é com propriedade intelectual. Então, pela primeira vez, diferentes setores estão falando entre si. Isso é muito importante para nós e é o que estamos mostrando em Frankfurt. Nosso principal negócio sempre será a indústria editorial, mas há um halo ao redor dela, porque nós possuímos conteúdo, temos sido curadores de conteúdo. Editores fazem controle de qualidade. Então, todo mundo que precisa lidar com conteúdo pode realmente aprender com o mundo editorial. E deveria se envolver em conversas com editores.

Pode nos falar mais sobre o The Arts+?
Fizemos pela primeira vez no ano passado, foi desenvolvido a partir do setor de livros de arte. Livros desse setor sempre foram bem internacionais e é um setor com muita coprodução, os editores trabalham juntos para vender seus títulos em todo o mundo, muitos em inglês, um idioma mais internacional… várias mudanças aconteceram nesse setor, como a Taschen, por exemplo, tratando o livro como objeto, como uma obra de arte. Muitos museus e fundações ao redor do mundo iniciaram suas próprias editoras, especialmente aquelas que pertencem a grandes marcas do mundo da moda, como por exemplo Prada e Louis Vuitton com seus museus em Milão, Veneza e Paris publicando seus próprios livros, que não são comercializados somente em livrarias. O livro está se transformando em uma mídia que traz informação, conhecimento e estilo de vida. Quem vai comprar um livro de 2.500 dólares? Ano passado convidamos David Hockney para falar desse seu livro. Na verdade ele estava querendo fazer um manifesto com o livro, e foi muito interessante ouvir seus pontos de vista.

Percebemos, ainda, uma necessidade de falar sobre tecnologia. Realidade virtual tem se tornado importante para os editores, e também para esses profissionais das outras mídias. A impressão 3D está mudando o cenário, mas todo mundo precisa de conteúdo. E tudo que está em um arquivo hoje pode ser monetizado, é a maneira para vender, isto é muito similar a como vendemos direitos autorais. Portanto, existe um interesse em novos canais de venda, novas cadeias de valores, há muitos players chegando da indústria criativa, há tecnologia envolvida, mas sempre existirá uma área cinza porque o Copyright não cobre todas as questões que estão surgindo. Se você digitalizar um conteúdo, quem é o seu proprietário? É quem vai usar este conteúdo? Quem o digitalizou, ou quem criou um novo modelo de negócio para monetizar isso? Há muitas questões. Por isso precisamos trazer todas as pessoas juntas para Frankfurt; e espero que para outros locais também. Existe muito interesse por este assunto no Sul da Ásia, e em alguns dos novos países emergentes.

Pode fazer uma análise rápida das mudanças no mercado do livro?
Precisamos manter duas coisas em mente: nossa força está no mercado tradicional do livro. Isto não vai mudar drasticamente nos próximos 30 anos, então é importante focar no que você sabe fazer muito bem. Perdemos o nosso foco nos últimos anos porque todo mundo estava com medo da Amazon e do digital, mas o que ainda importa para o editor é colocar seus livros nas prateleiras das livrarias. Então eles precisam trabalhar juntos. E precisamos ver como melhorar. É fundamental fazer chegar a informação correta às livrarias — estamos falando de metadados, e metadados de qualidade e padronizados são fundamentais. Isso é um bem, uma vantagem de negócio, da Amazon, mas precisa ser melhorado para que as livrarias e editores possam trabalhar juntos com metadados de qualidade. Então, temos este bloco focado na maneira tradicional de fazer negócios no mundo do livro e, por outro lado, precisamos explorar novos modelos de negócios. Acredito que é ainda mais importante que esses novos players se acostumem com a maneira como nós fazemos negócios. Não somos nós que vamos aprender com eles. No passado eles não se preocupavam com quem tinha os conteúdos porque produziam o que precisavam, mas agora com toda essa demanda de séries de TV, Netflix, filmes, eles precisam muito mais, e os editores possuem esse conteúdo.
Então, precisamos manter duas coisas em mente: não perca o tradicional, é muito importante; e explore novas atividades.

O que você diria a um livreiro buscando crescer o seu negócio?
Espera-se do livreiro o mesmo que do editor: curadoria. Você precisa ter uma função de controle de qualidade; o trabalho de marketing e comunicação também são muito importantes para o livreiro. E você precisa conhecer o seu cliente e a sua comunidade muito bem! E é para essas pessoas que você deve fazer a curadoria e comunicar que tem esses produtos que elas desejam em sua loja. A chave é a relação livreiro-leitor/consumidor. E, é claro, você necessita manter sua relação com o editor, para saber o que existe para oferecer à sua comunidade e manter atividades na web, ou seja, um site apenas de conteúdo e comunicação ou até mesmo um e-commerce. Não quer dizer que todo mundo precisa ter uma loja virtual. Se você trabalha mais com uma comunidade local e consegue atendê-la, isso é que importa. Não é um dogma ter uma loja na web. Nem todo mundo precisa “brigar” com a Amazon. Cada livreiro deve conhecer seus pontos fortes e encontrar a melhor maneira para se relacionar e se comunicar com sua comunidade; isso é o importante. A chave é informação, e isso nos remete à questão dos metadados — ter a informação correta e mais completa possível, para que você seja encontrado e também os livros e assuntos que sua comunidade busca sejam encontrados em sua livraria.

Quais as mudanças mais importantes no mercado do livro que você viu nos últimos anos?
Você precisa olhar para editores e livreiros separadamente. O que tenho visto é livrarias independentes se fortalecendo cada dia mais, no mundo todo, e se tornando mais relevantes. Também notamos um “downsizing” das grandes lojas, reduzindo seu tamanho dos mais de dois mil metros quadrados para cerca de 500m2. Outras duas mudanças chamam a atenção: a especialização da venda de livros e o crescimento do e-commerce. Tudo isto relacionado aos livreiros.  Pelo lado dos editores, vimos literatura para crianças e “Young Adults” mais fortes a cada dia, mudanças nos livros de artes e estilo de vida. Os livros tradicionais de culinária parecem estar desaparecendo, e apenas os que se relacionam com estilo de vida é que estão se destacando. E o mundo do livro trade tem mudado muito, se segmentado mais, todo mundo está correndo atrás do best-seller e a calda longo (livro de catálogo) está desaparecendo. E o mercado de CTP mudou profundamente nos últimos 15 anos e viu uma completa digitalização de seus produtos.

Que conselho daria aos profissionais que vão à Feira do Livro de Frankfurt?
Saiba o que você quer. Você precisa vir à Feira com uma ideia clara do que espera dela. Você pode buscar informação/conhecimento, ou pode estar em busca de vender e comprar direitos; ou pode ainda estar buscando as tendências de mercado ou mesmo ampliar sua rede de contatos. Então faça uma lista das suas prioridades e converse com as pessoas antes de viajar para saber o que está acontecendo, ter uma ideia do que esperar. Priorize, foque, não se distraia.

O que os brasileiros não podem perder este ano em Frankfurt?
Especialmente o The Arts+, porque vejo os brasileiros muito envolvidos com arte e cultura. Eu acredito que vocês deveriam se envolver de verdade no que está acontecendo no The Arts+ e também conferir a apresentação do país convidado de honra. Acho que é uma das apresentações mais intelectuais que já vi. Outra coisa que precisam atentar é que com a França como país convidado, e tendo escolhido uma abordagem pelo idioma, não pela nação, há muito que descobrir. Estarão presentes editores do Norte da África, do Oriente Médio e do Caribe; estes últimos participando pela primeira vez da Feira de Frankfurt. E não esqueçam o que eu já mencionei: explorem o tradicional. Conheçam sobre distribuição, visitem os profissionais de logística, procurem conhecer o trabalho dos livreiros. Os maiores livreiros do mundo estarão lá. Marquem reuniões, conversem com eles e encontrem novas maneiras de cooperar.

Frankfurt Rights Meeting foca nas mudanças
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Bate-papo com mediadores, oficinas, palestras e experiências imersivas nas tecnologias e possibilidades do mundo digital fazem parte da programação do Espaço Digital na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, realizada pela Saraiva e #coisadelivreiro.
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De acordo com um  estudo da plataforma Bookwire , a receita da venda de eBooks de editores latino-americanos cresceu 110% entre 2015 e 2016. O percentual  confirma outro relatório da Libranda , lançado há algumas semanas.
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