Livro digital é oportunidade para superar limites

Por Ivani Cardoso

Daniel Benchimol atua há mais de 20 anos no mercado editorial. É diretor da empresa Proyecto451, criada há seis anos e especializada no desenvolvimento de estratégias digitais para o setor editorial. Ele reconhece que conseguiu unir os temas que mais o apaixonavam com a experiência pessoal no mundo editorial e as novas tecnologias. Aponta a resistência às mudanças como um grande problema no mercado de livros digitais na Argentina, com a digitalização de apenas 15% das novidades editoriais a cada ano.

 

Leia a íntegra da entrevista:

Qual a sua formação e campo de atuação?
Sou formado em Comunicação pela Universidad de Buenos Aires e presto serviços e consultoria a mais de 80 editoras e organismos da América Latina e Espanha, entre elas Editorial Planeta, Penguin Random House, Grupo Macmillan, Siglo XXI, CEPAL (ONU) e Fundacion Leer.
Também sou professor e participo de seminários em diversos campos educacionais, como na Universidad de Buenos Aires e na Universitat Oberta de Catalunya (Barcelona). Realizo treinamentos internos em editoras e conferências em eventos relevantes da indústria editorial como a Feira do Livro de Buenos Aires e a Feira de Guadalajara.

Quais são os objetivos da empresa?
O que buscamos desde a origem da empresa é envolver todos esses universos que nos interessam e tentar compreender e ajudar o setor na profunda transformação que atravessa. É uma empresa de serviços que vai mudando em função das necessidades que vão surgindo. No fundo, o objetivo é o mesmo: ser protagonista dessas mudanças.

Você tem clientes só na Argentina ou em outros países também?
Trabalhamos com editoras e organismos em toda a América Latina e Espanha. Atualmente os países onde mais nos desenvolvemos são Argentina, Chile, México e Espanha.

O fato de muitas pessoas na Argentina não usarem cartão de crédito ainda é um problema para o desenvolvimento do mercado digital?
Não creio que seja um grande inconveniente. Há algum tempo atrás era, mas nesses últimos tempos estão aparecendo outras formas de pagamento eletrônico que não requerem um cartão de crédito e podem ajudar neste tema. Por exemplo, há poucas semanas o Banco de la Nación Argentina começou a promover o primeiro sistema pago móvel, PIM, que funciona simplesmente com mensagens de texto (SMS).

Como está o mercado de livros digitais na Argentina?
Como acontece em muitos países da região, ainda é um mercado muito imaturo. E por várias razões. A primeira é o freio à entrada de dispositivos e excelentes players tecnológicos nos últimos anos. Apple é uma marca praticamente exclusiva e Amazon não tem nenhum tipo de presença. Isso tem atrapalhado muito o desenvolvimento do mercado digital próprio. Além disso, há a resistência à mudança do setor editorial. Na Argentina apenas se digitaliza 15% das novidades editoriais a cada ano, quando normalmente na América Latina é acima de uns 20%. Como há pouca oferta de conteúdo, os leitores não encontram atrativos e o negócio não termina de amadurecer. Entre os diferentes gêneros, o que mais tem se desenvolvido é o acadêmico. E logo os grandes grupos editoriais vão monopolizando cada vez mais os negócios.

Quais os maiores desafios para o desenvolvimento desse mercado?
Sempre penso que o livro digital é em si mesmo uma enorme oportunidade para superar os grandes limites que temos não somente na Argentina, mas em toda América Latina quanto à circulação do livro. A distribuição dos livros na região tem sido sempre um problema, com prazos prolongados e os custos que a logística determina. O livro digital traz uma incrível oportunidade de distribuir os livros dentro da América Latina e, inclusive, equilibrar a balança negativa com a Europa. Lamentavelmente os editores em seu conjunto não veem da mesma forma e ficam na expectativa de que o negócio amadureça para resolverem entrar. Além dessa passividade, o único que eu vejo é que provavelmente emergem muitas outras empresas fora do mercado editorial que começam a ocupar o vazio que o próprio setor não está cuidando.

Quais as melhores estratégias de marketing para vender um livro digital?
Em geral, nossa recomendação é trabalhar um conjunto de estratégias que cercam o editor e o leitor. A chave é poder começar a pensar que o modelo de negócio de uma editora passa mais por sua audiência do que pelos conteúdos que produz. Neste sentido, hoje temos ferramentas únicas que nos permitem a um custo muito baixo encontrar o leitor específico e cercá-lo com nossos conteúdos. Temos que combinar para eles estratégias em redes sociais, posicionamentos em buscadores, campanhas de marketing digital pagas, um bom trabalho com os metadados dos conteúdos e o e-mail marketing, entre outras ferramentas. No fundo, o mais importante são os conteúdos. Devemos usá-los da melhor forma para atrair os leitores.

Como a comunidade acadêmica está acompanhando esse mercado digital?
Depende do ponto de vista. Se a referência for os autores, podemos encontrar aqueles que ainda têm muita resistência à mudança e somente valorizam ter uma obra impressa como realização acadêmica. Há, ainda, os que entenderam o potencial que o digital traz ao setor, dando visibilidade ao seu trabalho em escalas nunca antes imaginados. Do lado dos alunos, a transformação é muito mais clara. Para eles não é tão importante o formato do conteúdo e sim poder acessar o mesmo para avançar em seus estudos. São eles os que mais estão pressionando por uma transformação editorial.

Está ampliando o número de profissionais voltados para o mundo digital em seu país?
Não, em absoluto. Somos poucas empresas quer estão trabalhando a transformação digital do setor editorial na Argentina, as mesmas que já o fazem há três ou quatro anos.

Com tantas novidades aparecendo como as editoras podem acompanhar as inovações?
O principal, é entender que a mudança que estamos atravessando é muito mais profunda que uma troca de formato. Trata-se de um novo modo de distribuir e acessar os conteúdos e que provoca uma revolução completa em toda a indústria. O que somente podemos propor às editoras é que façam a transformação de sua forma de trabalho aos poucos. Para isso, em primeiro lugar é preciso entender que a lógica digital se assemelha muito mais à uma lógica de serviços do que a uma lógica de venda de produto. Nesse ponto, o editor deve encontrar qual é o serviço que oferece: Formação? Entretenimento?  E logo que responder a essas perguntas começar a converter todo o seu fluxo nessa direção.

Qual é o segundo ponto?
É estar aberto a escutar o leitor. O que é absolutamente inédito nesses tempos é que podemos dialogar com nossos leitores, conhecê-los, descobrir seus interesses e nos relacionarmos com eles. Como terceira recomendação, indico se relacionar com outros setores culturais que já atravessaram outras fases da transformação digital: o mundo da indústria, do cinema, da música e especialmente os videogames. Sempre insisto que poucas coisas podem ser mais enriquecedoras para um editor do que ter uma conversa durante um café com um desenvolvedor de videogames.

Qual é o índice de leitura de livros digitais na Argentina?
Aqui teríamos que entrar em mais detalhes sobre a pergunta. Falamos de leitura ou falamos de venda? Se falamos de vendas, o índice é baixo. Ainda que não existam cifras, podemos estimar que está em torno de 1 ou 2%. Se falamos de leitura, as cifras oficiais são menores ainda. No entanto, estou convencido que a leitura digital é muito alta em nosso país. Podemos mostrar um projeto em que estamos trabalhando: o Desafío 20-20. É um projeto que desenvolvemos para a Fundação Leer, uma ONG que fomenta a leitura na Argentina. O que temos desenvolvido em essência é um “Netflix” gratuito de livros infantis para 0 a 12 anos, onde há uma oferta diária de uns 100 títulos. Em cinco meses, teremos 26 mil crianças lendo todos os dias, e teremos mais de 300 mil livros lidos, em uma curva ascendente. Esta é uma mostra clara de quando falamos de leitura digital com algumas bases muito simples ainda é possível alcançar uma audiência enorme, ainda que na América Latina.

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