A literatura brasileira “são muitas literaturas”

Por Ivani Cardoso

José Luiz Passos se inspira em contar histórias que ainda não foram contadas. E há outra boa história a caminho. Está concluindo “Antologia fantástica da República Brasileira”, um livro mais ousado, composto de ensaios e textos ficcionais, mistura de afeto com política. Publicou “Nosso grão mais fino”, “O sonâmbulo amador” e “O Marechal de costas”, entre outros. Nasceu em Pernambuco (1971), é sociólogo e professor de literaturas brasileira e portuguesa na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Leia a íntegra da entrevista

Quando o livro e a leitura entraram em sua vida?
Meu pai tinha uma boa biblioteca. Lembro de livrinhos infantis, leituras da escola e, sobretudo, dos presentes de aniversário de uma tia que era professora do Ensino Fundamental numa escola pública, aqui no Recife. Ela me presenteou “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, na versão traduzida e resumida por Monteiro Lobato. Essa história até hoje não me sai da cabeça. Em casa, lia mais Lobato, Orígenes Lessa, Érico Veríssimo e a coleção Para Gostar de Ler. Depois, livros de divulgação científica e a coleção Os Pensadores. Acho que me tornei um leitor mais sério a partir daí.

A escola ajudou essa relação ou não?
A educação fundamental e média em escola católica me ajudou a prestar atenção a simbologias, interpretações, parábolas. Além dos livros, certa atmosfera de mistério que reside na leitura foi fazendo cada vez mais parte da minha relação com o livro.

Em que momento se conscientizou: eu sou um escritor?
Ainda estou me conscientizando.

De onde vem a sua inspiração?
Entendo “inspiração” como uma grande vontade de escrever, seguida de método e dedicação a essa vontade. De onde ela vem? Talvez do desejo de contar histórias que ainda não vi contadas, e de compartilhar com outras pessoas situações imaginadas que julgo importantes para se entender e gozar a vida na companhia de outros.

Falou que está terminando um livro, pode falar sobre ele?
Acabo de publicar a novelinha “A órbita de King Kong”, uma de fábula de ficção cientifica que, na realidade, é uma parábola sobre minha luta com o câncer. O livro me deu muito prazer e foi ilustrado pela minha esposa. Agora me dedico ao projeto “Antologia fantástica da República Brasileira”, um livro mais ousado, composto de ensaios e textos ficcionais ligados pela contaminação entre família e Estado. A partir dessa mistura de afeto com política, de mito familiar com revisão histórica, procurei montar um painel variado, com capítulos independentes, porém interligados, na esperança de oferecer ao leitor algo diferente dos livros que escrevi até agora.

Que tipo de retorno teve do seu livro “O Marechal de Costas”?
Fiquei contente com a repercussão do romance. Recebi várias mensagens de leitores que se disseram prazerosamente intrigados pela mistura dos tempos históricos e pela caracterização que fiz do presidente Floriano Peixoto. A primeira edição se esgotou em poucos meses. Não esperava tanto interesse no tema.

Como é o seu processo criativo?
Escrevo sempre que tenho pelo menos duas horas livres no dia. Ou, então, busco roubar da noite e dos fins de semana o tempo necessário à escrita. Tomo notas durante vários meses, antes de iniciar a redação de um livro. A primeira versão dos primeiros capítulos é invariavelmente composta em cadernetas. Quando tenho um título mais ou menos definitivo e uma estrutura já montada, abro um arquivo de computador e passo a digitar o texto.

Quem são seus autores preferidos?
Variam com o tempo, com a fase no ano, com as horas do dia. Tal como os seriados de televisão e os pratos que gostamos comer, a literatura oferece uma grande variedade de estilos, temas e situações. Não há Uma, a Melhor, a Ideal. Há várias. Há o dia de Machado de Assis e o dia do cordel. Há o momento de ler ficção contemporânea e aquele de voltar a Shakespeare etc.etc. Isto dito, retorno com frequência a Machado, Graciliano e Guimarães. Mas dizer isso é óbvio, não é?…

Em suas aulas na UCLA, o que procura destacar na literatura brasileira?
Destaco o que acabei de mencionar na resposta acima: que a literatura brasileira são muitas literaturas. E que dá gosto buscar sentido e companhia em meio a toda essa diferença.

Como é o interesse dos alunos pela nossa literatura?
É proporcional ao interesse geral das pessoas pela literatura. Com pouquíssimas exceções, não acho que a ficção literária tenha atraído ou exista para atrair multidões. O interesse do aluno estrangeiro pelo Brasil é na maioria dos casos um interesse por um sentido vago de cultura brasileira. A música, os pacotes turísticos, um pouquinho de cinema, os programas de voluntariado junto a ONGs em favelas ou na Amazônia atraem bem mais o interesse dos jovens americanos do que a literatura. Há aqueles poucos, porém, que se encantam e querem saber mais a respeito de Elvira Vigna, Clarice Lispector, Paulo Lins, Osman Lins, Graciliano Ramos, entre tantos outros. Estes alunos, então, fazem cursos comigo.

A partir de que momento um jovem deve ter Machado de Assis e como motivá-lo para isso? Como definiria Machado?
Não creio que haja uma idade mínima para se ler Machado. O importante é “voltar” a ler Machado. Vejo no Brasil crianças de 9, 10, 11 anos assistindo à novela das oito… elas entendem o que veem? E não entenderiam “Dom Casmurro”? Ou seja, é uma falsa questão. Não se lê para entender, tal como não se vai a um jogo do Fluminense para entender o jogo ou time. Vamos ao jogo, e lemos, por prazer. Cada qual tirará o prazer possível naquela etapa de sua vida, a depender da familiaridade que já possua com o “jogo”. Toda leitura vale a pena; de qualquer texto; em qualquer idade. Quanto à definição de Machado de Assis, bem, essa é impossível. Levei dez anos para escrever um livro de 400 páginas sobre ele (“Romance com pessoas”, Alfaguara, 2014) e resulta que defini-lo é impossível. Melhor que a definição dele é a leitura dos seus próprios textos.

A literatura brasileira continua “quase invisível” nos Estados Unidos?
Continua. Mas não acho que esta seja uma condição exclusivamente nossa, nem acho que ela seja necessariamente negativa.

Com tantos atrativos tecnológicos, como acha que pais e professores devem agir para motivar crianças e jovens para a leitura?
Dando o exemplo. Lendo na frente deles. Passando menos tempo no computador, no tablet, no telefone. Ou, então, mostrando formas de se chegar à leitura do texto literário a partir do computador, do tablet, do telefone. O trabalho do professor é fazer com que o aluno seja exposto a formas de prazer, entendimento e informação que, de outra maneira, não seriam obviamente acessíveis ao aluno. E, a partir daí, mostrar a tal aluno como vale a pena encontrar um lugar na sua vida para a prática da leitura.

Você passou por problemas sérios de saúde. Agora está tudo bem? Todo esse processo também refletiu em sua literatura?
A depender dos exames do próximo mês, sim, acho que estou bem melhor do que estava há um ano. Obrigado pela pergunta. O câncer nos fragiliza ao longo de um período extenso; na realidade, ele nunca mais nos deixa. A fragilidade passou a ser parte mais efetiva e integral dos meus personagens: uma fragilidade ao mesmo tempo de corpo e de espírito. E nesta seara, a literatura tem muito a nos dizer. Aliás, ela nos faz belíssima companhia.

Agents & Business Center
Da Redação

Fazer negócios durante a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro pode ser muito mais fácil do que você imagina. Pela segunda vez vai funcionar o espaço dedicado a reuniões profissionais, com a parceria da Feira do Livro de Frankfurt.
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A diferença deste clube de assinaturas, porém, está escondida em oito das 30 cartas: nelas, basta apontar a câmera do celular, dentro do aplicativo da PlayKids, para ver os objetos em realidade aumentada — tecnologia que sobrepõe elementos virtuais ao mundo real, como foi visto no jogo Pokémon Go.
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O Universo HQ conversou com Felipe Castilho, editor responsável pelo Plot!, sobre a nova empreitada. “É um recomeço. O projeto nasceu efetivamente em fevereiro, após um período de conversas e planejamentos. Foi quando definimos tudo, começamos a entrar em contato com autores e negociar os títulos”, explicou.
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App de literatura infantil e educação bilíngue
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A Sá Digital lançou o aplicativo “Na ponta da língua”, com  quatro livros digitais em português, para a faixa de Zero a 07 anos, com versões para o inglês e o espanhol. Apple – https://goo.gl/Wg0yw8; Google Play – https://goo.gl/ZlPL7I .
Sá Editora/Sá Digital www.saeditora.com.br

 

Prêmio Paraná de Literatura: inscrições até 31/08
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O concurso da Biblioteca Pública do Paraná selecionará livros inéditos de autores de todo o país nas categorias Romance, Contos e Poesia. O vencedor de cada categoria receberá R$ 30 mil e terá sua obra publicada, com tiragem de mil exemplares. Basta acessar este link.
As inscrições são gratuitas.

 

A biblioteca de manuscritos inéditos
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O mundo do livro e da leitura sempre terá uma versão desconhecida, dos livros não editados e lidos. Agora a Biblioteca Brautigan, em Vancouver, decidiu disponibilizar aos usuários mais de 300 manuscritos originais não publicados.
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Mostra de filmes sobre educação
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De 3 a 16 de agosto o Caixa Belas Artes apresenta a mostra Escola: Cidade Aberta, com 17 filmes que têm como tema as relações com a escola, trazendo para o público uma reflexão sobre o processo recente de ocupação nas escolas paulistas. Rua da Consolação, 2423, SP.
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Estante
Discurso de urso
Editora: Record (Galerinha Record)
Autor: Júlio Cortázar
Páginas: 28
Preço: R$ 29,00
EAN: 8501084999

Primeiro texto do autor dedicado ao público infantil Foi escrito em 1952 e ele dedicou aos filhos do pintor e poeta Eduardo Jonquières, seu amigo. Mais tarde integraria o famoso volume de contos “Histórias de cronópios e famas”.  Conto poético sobre a vida e os seres humanos pelos olhos de um urso.

 

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